Defensoria Pública aciona TCU e Denasus para investigar Santa Casa de Campo Grande
Defensoria aciona TCU e Denasus para investigar Santa Casa

Defensoria Pública aciona TCU e Denasus para investigar Santa Casa de Campo Grande

A Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul anunciou, nesta sexta-feira (10), que acionou o Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (Denasus) e o Tribunal de Contas da União (TCU) para investigar o uso de recursos federais na Santa Casa de Campo Grande. O pedido foi realizado após uma vistoria no hospital, realizada em março, que identificou falhas graves e preocupantes no atendimento aos pacientes.

Vistoria revela cenário de descaso e condições precárias

Durante dois dias de inspeção, 46 pessoas foram ouvidas, incluindo pacientes e profissionais de saúde. As entrevistas apontaram uma série de problemas estruturais e administrativos que comprometem a qualidade do atendimento. Entre as situações mais críticas registradas, estava um paciente com a perna engessada e enfaixada com sacolas plásticas, evidenciando a precariedade dos recursos disponíveis.

Os relatos coletados pela Defensoria incluem:

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  • Cancelamento de cirurgias após o preparo completo do paciente
  • Pessoas mantidas em jejum por dias sem que o procedimento fosse realizado
  • Falta de informações claras sobre diagnóstico e tratamento
  • Decisões clínicas tomadas à distância, através do WhatsApp, sem contato direto com o paciente
  • Problemas na estrutura física, como móveis danificados, falta de climatização adequada e falhas na higiene em diversos setores do hospital

Pacientes aguardam semanas por cirurgias essenciais

Segundo a Defensoria Pública, os problemas identificados atingem várias áreas do hospital, com destaque para a ortopedia, onde cirurgias eletivas foram suspensas por tempo indeterminado devido à falta de pagamento das equipes médicas, especialmente dos anestesistas. Há relatos de pacientes internados por semanas à espera de cirurgias que nunca aconteceram, sendo posteriormente devolvidos ao sistema de regulação sem solução e sem previsão de atendimento.

Outros casos graves relatados incluem:

  1. Paciente diagnosticado apenas após enfermeiros enviarem fotos da lesão ao médico responsável
  2. Paciente internado por mais de 20 dias para cirurgia cerebral, sem qualquer avaliação do médico responsável
  3. Espera de meses ou até anos para retirada de materiais cirúrgicos
  4. Morte de uma paciente por choque séptico, possivelmente relacionada a infecção causada por material ortopédico não retirado a tempo

Coordenadora da Defensoria descreve situação como "insustentável"

A coordenadora do Núcleo de Atenção à Saúde (NAS), defensora pública Eni Maria Sezerino Diniz, afirmou que a atuação da Defensoria ocorreu diante de um cenário considerado completamente insustentável. "Estamos falando de um descaso absoluto. Enquanto se discutem reuniões e acordos, os assistidos estão morrendo. Não é papel da Defensoria se omitir", declarou a defensora pública.

Segundo ela, o caso foi levado ao Denasus e ao TCU porque há recursos federais significativos envolvidos e esses órgãos ainda não haviam sido acionados para investigar a situação. Em 2025, a Santa Casa recebeu mais de R$ 243 milhões em verbas federais. Já em 2026, apenas até março, o valor ultrapassa os R$ 53 milhões.

"É uma situação gravíssima que precisa ser investigada. O que encontramos foi desassistência real: pacientes sem atendimento médico adequado, decisões sendo tomadas por WhatsApp, cirurgias canceladas e pessoas sem qualquer previsão de tratamento", enfatizou Eni Maria.

Nova lei federal reforça direitos dos pacientes

A situação ocorre logo após a sanção da Lei nº 15.378/2026, em 7 de abril, que criou o Estatuto dos Direitos do Paciente. A nova legislação garante direitos fundamentais como atendimento digno e em tempo adequado, acesso a informações claras sobre diagnóstico e tratamento, acompanhamento por profissional qualificado, estrutura adequada e participação ativa do paciente nas decisões sobre o próprio tratamento.

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O texto legal também prevê que a violação desses direitos pode ser considerada violação de direitos humanos. Para a Defensoria Pública, o que foi encontrado na Santa Casa de Campo Grande contraria diretamente todos esses pontos estabelecidos pela nova lei. "A lei federal foi publicada nesta semana e entrou em vigor imediatamente. A atuação da Defensoria Pública também está alinhada a essa norma", explicou Eni Maria.

Investigação busca apurar irregularidades e responsabilidades

O pedido formal de investigação foi enviado aos órgãos federais e inclui a análise detalhada do uso das verbas públicas, da gestão administrativa do hospital e da responsabilidade por possíveis danos causados aos pacientes. A expectativa da Defensoria é que sejam apuradas todas as irregularidades existentes e que sejam adotadas medidas concretas para garantir o funcionamento adequado do serviço de saúde.

A reportagem do g1 MS procurou a Santa Casa de Campo Grande para obter um posicionamento sobre as acusações, mas não obteve resposta até a última atualização desta matéria. A situação permanece sob investigação pelos órgãos competentes, enquanto pacientes continuam enfrentando dificuldades no acesso a tratamentos médicos essenciais.