Clínica oftalmológica é interditada em Salvador após pacientes perderem visão em cirurgias de catarata
Clínica interditada em Salvador após pacientes perderem visão

Clínica de oftalmologia é interditada em Salvador após graves complicações pós-cirúrgicas

A Secretaria Municipal de Saúde de Salvador determinou a interdição imediata da Clínica Clivan, localizada na Avenida Anita Garibaldi, após uma série de denúncias graves envolvendo pacientes submetidos a cirurgias de catarata. A medida cautelar foi anunciada nesta segunda-feira, dia 2, e incluiu a suspensão do convênio que a unidade mantinha com o Sistema Único de Saúde.

Pacientes relatam sofrimento intenso e perda visual

De acordo com relatos coletados pela TV Bahia, pelo menos 30 pacientes que realizaram o procedimento no dia 26 de fevereiro apresentaram complicações severas. Os sintomas incluem dores agudas nos olhos, inchaço, lacrimejamento constante, sangramentos e, em casos mais graves, perda total ou parcial da visão.

"Cheguei em casa e não consegui dormir direito. O olho está doendo muito, inchado, com lágrimas constantes. Foi uma experiência horrível", desabafa Iraci, paciente de 64 anos que viajou de Ribeira do Pombal, interior da Bahia, para realizar a cirurgia na capital.

Rede de apoio e encaminhamentos hospitalares

Os pacientes afetados organizaram uma rede de apoio mútuo e foram encaminhados pela própria clínica para o Hospital Santa Luzia, no bairro de Nazaré. No entanto, muitos ainda aguardam diagnósticos definitivos sobre as causas das complicações e temem pela perda permanente da visão.

Familiares relatam que a clínica não forneceu esclarecimentos adequados sobre o ocorrido. "Após o procedimento, tivemos uma consulta com um especialista na Clivan e ele apenas disse: 'tenha calma, estamos batalhando para não acontecer a perda da visão'", conta a filha de dona Iraci.

Casos mais graves envolvem remoção ocular

Segundo informações de familiares, quatro pacientes já tiveram que passar pela remoção cirúrgica do globo ocular após serem diagnosticados com infecção bacteriana grave no Hospital Geral do Estado. Esses pacientes também haviam realizado cirurgias na Clínica Clivan e, ao apresentarem sintomas, foram orientados a procurar atendimento no HGE sem o devido encaminhamento.

"A clínica mandou que eles procurassem o HGE, mas não houve acolhimento adequado. Lá, foram diagnosticados com uma bactéria e o médico considerou o estado tão grave que precisou remover o olho dos pacientes. Nosso maior medo é que isso aconteça com nossos familiares", relata Iranildes, cuja mãe também foi operada na clínica.

Resposta das autoridades sanitárias

A Secretaria Municipal de Saúde detalhou em nota que, embora a Clínica Clivan possuísse alvará sanitário vigente e estivesse devidamente licenciada, foram tomadas as seguintes medidas cautelares:

  1. Suspensão cautelar do alvará sanitário
  2. Interdição temporária dos serviços relacionados aos procedimentos em investigação
  3. Instauração de processo administrativo sanitário para verificação das condições de funcionamento
  4. Notificação ao Ministério Público e ao Conselho Regional de Medicina da Bahia

O Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia informou que realizou fiscalização na clínica nesta segunda-feira e que eventuais sanções serão divulgadas após análise completa do caso.

Posicionamento da clínica

Em nota oficial, a Clínica de Oftalmologia afirmou que todos os protocolos clínicos, técnicos e de biossegurança foram rigorosamente seguidos durante as cirurgias. A instituição destacou que realiza mais de 8 mil cirurgias anualmente e mantém histórico de segurança e qualidade, classificando o episódio como "pontual".

"Reiteramos nosso compromisso com a saúde, o bem-estar e a transparência no atendimento aos pacientes, permanecendo à disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais", afirmou a clínica em comunicado.

Impacto nas famílias e custos adicionais

Muitos pacientes vieram do interior do estado para realizar as cirurgias em Salvador e agora enfrentam dificuldades logísticas e financeiras. "Ela veio do interior, saímos de lá às 3h da manhã. Todos os medicamentos são caros e estamos comprando por conta própria para tentar salvar a visão dela", relata um familiar.

A advogada Eveline Santos, que representa um dos pacientes, confirmou que seu cliente já perdeu a visão de um olho e passará por cirurgia para remoção do globo ocular e instalação de prótese. "Os médicos tentaram controlar a bactéria com antibióticos, mas infelizmente foi necessário remover o olho para evitar que a infecção se espalhasse e causasse lesão cerebral", explicou a profissional.

As investigações continuam enquanto pacientes e familiares aguardam respostas sobre as causas das complicações e as perspectivas de recuperação.