Casamentos com pactos nupciais disparam 82% no Brasil em 5 anos
Pactos nupciais disparam 82% no Brasil em 5 anos

Pragmatismo no altar: pactos nupciais disparam 82% no Brasil em cinco anos

O amor romântico encontra o pragmatismo jurídico: os chamados pactos antenupciais, acordos que estabelecem termos e condições de uma futura união conjugal, nunca foram tão frequentes no Brasil. Dados do Colégio Notarial do Brasil revelam que, em 2025, foram registrados 70.289 instrumentos do tipo, um aumento significativo de 82% em relação a cinco anos antes, quando não ultrapassavam 39.000.

Gerações mais jovens lideram a tendência

Quem puxa essa fila são os integrantes das gerações que chegaram recentemente à vida adulta. Millennials, entre 30 e 45 anos, e representantes da Geração Z, de até 30 anos, se mostram até dez vezes mais propensos a assinar compromissos antes de subir ao altar. "Esses pactos tendem a se consolidar como etapa natural do processo de organização do casamento civil, contribuindo para maior segurança jurídica e previsibilidade para os casais", afirma Eduardo Calais, presidente do Colégio Notarial do Brasil.

Mais do que proteção de bens: novos dilemas da vida moderna

Os acordos já não são mais vistos como "vacinas de milionários" contra golpes do baú, mas sim como instrumentos que permitem tratar de situações que a lei não prevê. Além da tradicional separação de bens, os contratos agora regulam:

  • Dívidas pré-existentes e perspectivas futuras de herança
  • Guarda dos bichos de estimação
  • Destino de embriões congelados
  • Indenizações para o cônjuge que interromper a carreira para cuidar dos filhos
  • Cláusulas que preveem multas em caso de traição
  • Proteção contra posts vingativos nas redes sociais após término

Mulheres no protagonismo da mudança

Pela primeira vez, são as mulheres quem lideram os encaminhamentos aos cartórios, protocolando 52% dos pedidos de pactos nupciais. Mais escolarizadas e com carreiras consolidadas, elas buscam blindar a autonomia conquistada. "Trata-se de uma redefinição simbólica do casamento como parceria entre indivíduos autônomos", explica a socióloga Maira Soares.

Tecnologia democratiza o acesso

Outro fator que contribui para a disseminação do fenômeno é a tecnologia. Plataformas digitais formulam pactos nupciais com ajuda de inteligência artificial por preços entre R$ 1.200 e R$ 2.000, bem mais acessíveis do que os praticados por escritórios de advocacia tradicionais. "Queremos democratizar o acesso, ainda existe uma visão de que apenas os ricos e famosos recorrem a esses arranjos", pondera Luiza Jacob, da recém-criada EasyNup.

Experiência internacional confirma tendência

Nos Estados Unidos, 47% dos millennials e 41% dos zoomers (Geração Z) casados ou noivos formalizaram combinações prévias antes de trocar alianças. No Reino Unido, a plataforma Wenup dobrou de tamanho a cada ano desde sua fundação em 2023, atingindo receita de 1 milhão de libras em 2025.

Do amor romântico ao pragmatismo negociado

Enquanto a lenda medieval de Tristão e Isolda inaugurava a ideia de um amor eterno pelo qual valia a pena lutar e morrer, o século XXI impõe certo pragmatismo às relações. "O amor romântico prega que o casal tem que se transformar em um só, o que é uma mentira", explica a psicanalista Regina Navarro Lins. "Essa ideia de fusão é nociva porque anula a individualidade."

Nesses novos tempos marcados por negociações permanentes entre marido e mulher, até os versos que embalam paixões talvez precisem ser reescritos: que seja eterno enquanto dure, conforme os termos doravante acordados entre as partes. E vale o escrito.