Mulheres revelam arrependimento materno: 'Uma armadilha impossível de escapar'
Em um relato emocionante e raro, mulheres brasileiras e internacionais compartilham em condição de anonimato o profundo arrependimento de terem se tornado mães, descrevendo a experiência como "uma armadilha impossível de escapar". Apesar do amor incondicional pelos filhos, elas enfrentam sentimentos de isolamento, exaustão extrema e uma sensação permanente de perda de identidade que raramente é expressa publicamente por medo de julgamentos severos.
O peso silencioso da maternidade
Carmen, uma professora na casa dos 40 anos, ama profundamente seu filho de 10 anos, Teo (nome fictício), mas afirma categoricamente que, se pudesse voltar no tempo, nunca teria escolhido a maternidade. "A maternidade acabou com a minha saúde, meu tempo, meu dinheiro, minha força e meu corpo", desabafa ela. "O preço é alto demais e o custo é para sempre." Carmen faz parte de uma comunidade oculta de mães que se arrependem, um grupo que encontra refúgio em fóruns online como o "I Regret Having Children", com 96 mil membros globais.
Quando tentou expressar seu arrependimento em um fórum geral de pais, Carmen enfrentou reações polarizadas: enquanto algumas pessoas demonstraram empatia, outras a trataram como "um monstro". Essa experiência reflete o estigma social que cerca o tema, onde mães temem revelar seus verdadeiros sentimentos até para suas próprias famílias.
Arrependimento não significa falta de amor
A psicoterapeuta Anna Mathur esclarece que, quando as mulheres se sentem seguras para falar sobre arrependimento maternal, o que aflora não é falta de amor pelos filhos, mas sim sensações de isolamento, exaustão ou perda de identidade. A socióloga israelense Orna Donath, autora do livro "Regretting Motherhood: A Study", reforça essa distinção crucial após entrevistar 23 mães.
"Lamento ter tido filhos e sido mãe, mas amo os filhos que tenho", declarou uma participante do estudo, mãe de dois adolescentes. "Eu gosto que eles estejam aqui, simplesmente não quero ser mãe." Dados de um estudo polonês de 2023 estimam que 5 a 14% dos pais se arrependem da decisão de ter filhos e optariam por não ser pais se tivessem uma nova chance.
Realidade versus idealização social
Muitas mães se sentem enganadas porque a realidade da maternidade não corresponde à versão idealizada perpetuada pela sociedade. Carmen, que se descreve como perfeccionista, relata que a responsabilidade de criar "um bom cidadão, uma pessoa boa e feliz" se tornou esmagadora, especialmente quando seu filho apresentou sérios atrasos de desenvolvimento.
"Cada momento simples se transformou em motivo de observação e preocupação", conta ela. Embora Teo não tenha sido diagnosticado com as condições temidas, o estresse constante levou Carmen a desenvolver uma doença autoimune. Sua história ecoa no filme "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria", onde a protagonista retrata uma mãe desgastada pela luta diária.
A busca por apoio e aceitação
Gianina, moderadora norte-americana do grupo do Facebook, explica que o objetivo da comunidade é documentar um fenômeno cultural que muitas vezes não tem espaço em conversas comuns. "A comunidade é grande e ativa porque muitas pessoas lutam silenciosamente com sentimentos que, segundo ouviram, não deveriam existir", afirma ela.
A psicoterapeuta irlandesa Margaret O'Connor observa que os jovens adultos hoje abordam a decisão de ter filhos com mais consciência, reconhecendo que é uma escolha e não uma obrigação automática. Ela alerta para a importância de tomar essa decisão por motivos próprios, não por pressões externas, e de não confiar cegamente na promessa de uma "aldeia" de apoio.
Caminhos para lidar com o arrependimento
O'Connor sugere que pais que se arrependam busquem terapia para explorar esses sentimentos em um espaço seguro e sem julgamentos. Para algumas mulheres, o arrependimento pode ser reduzido com apoio, descanso e mudanças nas circunstâncias, mas para outras, elementos dessa sensação podem persistir.
Carmen, que faz terapia há anos, aprendeu a aceitar seus sentimentos e a priorizar seu bem-estar. "Finalmente posso dizer 'não, desculpe, estou cansada e vou dormir cedo. Coma o que quiser na janta; o papai está aqui'", relata. Ela descobriu que, ao fazer isso, o mundo não implode e seu filho a aceita como um ser humano imperfeito.
Seu momento mais feliz com Teo ocorre todas as noites, quando se aconchegam na cama para compartilhar o dia. "É ali que entro realmente em conexão com Teo e observo a pessoa que mais amo no mundo", diz Carmen. "Deixo de me sentir um monstro." Essa dualidade entre amor profundo e arrependimento permanente ilustra a complexidade de uma experiência que desafia tabus sociais e convida a uma discussão mais aberta e empática.



