Campinas registra alta proporção de lares chefiados por mães solo, segundo dados do IBGE
Uma análise recente do Censo 2022, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que oito em cada dez domicílios monoparentais em Campinas, no interior de São Paulo, são liderados por mães solo. Especificamente, 55.674 residências na cidade são compostas por mulheres e seus filhos, representando impressionantes 86,2% dos lares monoparentais locais. Esse cenário não se limita a Campinas, estendendo-se a municípios vizinhos como Sumaré, Indaiatuba, Hortolândia e Americana, que completam as cinco cidades mais populosas da região coberta pelo g1 Campinas.
O desequilíbrio histórico na balança dos lares monoparentais
Danielle Keller Scalabrini, uma bancária de 37 anos divorciada e com guarda unilateral dos dois filhos, Júlia e André, reside sozinha em Campinas e personifica essa realidade. "Há um desequilíbrio, né? A gente vive numa sociedade onde a mulher assume esse papel naturalmente de cuidar. E assim, sempre que alguém assume, alguém deixa de ter a responsabilidade", reflete ela. Scalabrini destaca os desafios de equilibrar carreira profissional, afazeres domésticos, e a educação e lazer dos filhos, trabalhando em Sumaré enquanto mora em Campinas. "É muito difícil conciliar o tempo para as crianças, o trabalho fora e dentro de casa. Eu praticamente só trabalho", afirma, enfatizando a necessidade de uma rede de apoio, seja familiar ou profissional, para lidar com a sobrecarga.
As causas e tendências dos domicílios monoparentais
Segundo Glaucia Marcondes, coordenadora do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (Nepo) da Unicamp, várias situações levam à formação de residências monoparentais, incluindo maternidade precoce, divórcio, morte ou abandono de um dos genitores. No entanto, a predominância feminina nesses lares é uma tendência histórica no Brasil, independentemente da classe social. "A razão principal é que, quando acontece uma separação de casais, os filhos tendem a ficar com as mães. Décadas atrás, essa proporção era ainda maior, era quase 100%", explica Marcondes. Ela observa que, embora a guarda compartilhada tenha reduzido ligeiramente essa proporção, a realidade ainda é de lares monoparentais femininos.
Impactos e necessidades de apoio para mães solo
O relatório "Panorama Mulheres no Censo 2022" do IBGE, divulgado na última quinta-feira (26), fornece indicadores que identificam situações de desigualdade relacionadas às mulheres. Marcondes alerta para a necessidade de dar apoio às mães solo, muitas das quais enfrentam sobrecarga psicológica e financeira. "A nossa sociedade democrática trouxe outros parâmetros de políticas públicas que podem ser suporte para mulheres com maior vulnerabilidade", pondera ela, destacando que políticas sociais têm permitido que mulheres acessem recursos para cuidar de seus filhos. Scalabrini complementa: "É preciso ter essa rede e eu preciso ter essa consciência de que não dou conta sozinha", referindo-se à importância de suporte financeiro e logístico, como o transporte das crianças à escola.
Esses dados sublinham um padrão persistente na região de Campinas, onde a responsabilidade parental recai desproporcionalmente sobre as mulheres, exigindo reflexão social e ações concretas para equilibrar a balança dos lares monoparentais.



