Padre viraliza ao falar sobre diagnóstico de autismo e desafios na missa, na PB
Padre viraliza ao falar sobre diagnóstico de autismo na PB

O padre Rodrigo Trindade, da Diocese de Patos, no Sertão da Paraíba, viralizou nas redes sociais ao compartilhar o processo de diagnóstico e os desafios enfrentados por causa do Transtorno do Espectro Autista (TEA) durante uma audiência pública na Câmara Municipal. A sessão, realizada em 27 de abril, foi voltada para discutir questões relacionadas ao autismo e ganhou repercussão com trechos da fala do clérigo, gerando comentários de apoio.

Dificuldades na celebração da missa

O padre destacou as dificuldades que pessoas diagnosticadas com TEA enfrentam em diversas áreas, inclusive na Igreja. Ele afirmou: "Porque eu olho para aquelas crianças e na minha paróquia nós conhecemos algumas que são autistas, e eu penso, eu sei que a missa, assim como o mundo não foi feita para elas, o mundo não foi feito para os autistas. O mundo foi feito para os neurotípicos".

Rodrigo compartilhou suas próprias dificuldades ao celebrar missas. Ele exemplificou que algumas crianças fazem brincadeiras durante as celebrações, o que costuma ser um fator dificultante para ele. "Se o mundo muitas vezes não compreende, não ajuda, não dá suporte, aqui, na minha missa eu não posso fazer muita coisa, mas também brigar eu não vou, não. E eu digo às mães, aos pais, 'deixa se quebrar alguma coisa vocês aumentam o dízimo'. Nunca nenhuma quebrou nada. Eu gosto de usar umas lamparinas, quem quebrou duas lamparinas foi gente adulta", disse.

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Ele também mencionou que, quando alguém que o ajuda nas leituras litúrgicas traz um livro de cabeça para baixo, ele não consegue pedir para corrigir e tenta ler mesmo assim. "Por isso eu digo que todo autista tem algum nível de não verbalidade. Um silêncio involuntário. Se a luz estiver forte demais e o coroinha traz o ritual de cabeça para baixo, eu não consigo dizer para o menino 'vira esse livro que eu não estou vendo'. Eu vou tentar ler de cabeça para baixo", explicou.

Diagnóstico tardio e aceitação

Rodrigo Trindade, atualmente com 40 anos, foi diagnosticado com autismo há cerca de três anos, já na vida adulta. O processo de diagnóstico foi acompanhado por profissionais. Ele disse que o sentimento de inadequação é muito grande e que precisa "se justificar" para as pessoas sobre a condição. "Eu chamo de meus irmãos de espectro que precisam de bem mais suporte do que eu e eu olho para eles e penso, é difícil para eles. É difícil para eles. É severo para eles. Mas tem uma coisa que eles não enfrentam. Eles não precisam justificar que são autistas. Eu tenho que justificar, para poder ser aceito", afirmou.

Durante a audiência, o padre usava o cordão de identificação de pessoas autistas e destacou que utiliza o objeto corriqueiramente. Ele relatou que o processo até o diagnóstico foi longo e marcado por dúvidas, deslocamentos e desgaste emocional. "Por trás de quem aparentemente dá conta de tudo existe muita dor. A invalidação de um diagnóstico por seus amigos, por seus familiares, por seus irmãos de vocação. Sem contar a invalidação da sociedade. Imagina se eu chego hoje, e às vezes eu chego com o crachá assim e peço para ter preferência numa fila (...) 'o padre está passando na frente, agora os padres têm prioridade, é?' Não, o padre não tem prioridade em coisa nenhuma. Eu tenho outra prioridade. Enfrentar essa invalidação é terrível", relatou.

O caminho até o diagnóstico

O padre explicou que chegou ao conhecimento do autismo após receber acompanhamento psicológico com uma profissional da área. "Depois de dois anos de terapia, a psicóloga suspeitou. Aí encaminhou para o neuropsicólogo. Foram muitos testes, muitas sessões, muito cansaço", contou. Ao todo, ele passou por dez sessões em João Pessoa, precisando sair de madrugada da cidade onde mora para conseguir retornar a tempo de celebrar as missas das quintas-feiras.

O religioso afirmou que buscou a avaliação especializada para entender melhor os sinais apontados durante a terapia, mas revelou dificuldade em aceitar o resultado. "Depois ele me entrega um laudo que eu não aceitei. Eu fui querendo que não fosse. A gente tem que aguentar que digam que se vai atrás de regalias e benesses, atrás de laudo fácil. Machuca isso", afirmou. Durante o relato, o padre também falou sobre o impacto emocional provocado pelo preconceito em torno do diagnóstico.

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