Do leite ao pó: USP revela como o whey protein é produzido e os riscos do consumo excessivo
USP mostra produção do whey e riscos do consumo excessivo de proteína

Do leite ao pó: o processo de fabricação do whey protein revelado pela USP

O whey protein, suplemento proteico amplamente utilizado na indústria alimentícia e por praticantes de atividades físicas, tem sua origem em um ingrediente surpreendentemente comum: o soro do leite. Em uma reportagem especial, o Fantástico visitou o Laboratório de Tecnologia de Alimentos da Universidade de São Paulo (USP) para desvendar os detalhes dessa transformação.

No laboratório, que replica a estrutura das indústrias alimentícias em escala reduzida, é possível acompanhar todo o processo. O soro do leite – aquela água que se separa do queijo branco ou do iogurte – passa por uma câmara de secagem que atinge impressionantes 170 graus Celsius, convertendo-se no pó proteico conhecido como whey.

"Como a passagem pela câmara é extremamente rápida, durando apenas segundos, praticamente não há perda do valor nutricional", explica a professora Suzana Lannes, do Laboratório de Produtos e Processos da USP. Essa eficiência no processo é um dos fatores que contribuem para a popularidade do produto.

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A febre proteica e seus riscos para a saúde

A busca pelo corpo ideal tem impulsionado um mercado crescente de produtos enriquecidos com proteína, desde leites e pães até barras e biscoitos. No entanto, especialistas alertam para os perigos do consumo exagerado desse nutriente.

"Se consumimos proteína em excesso, não vamos aproveitá-la para sua finalidade principal, que é a constituição corporal e formação de massa muscular. O excedente será armazenado de alguma forma no organismo e pode se transformar em gordura corporal", adverte a nutricionista Lara Natacci.

As recomendações diárias de proteína variam conforme o perfil individual, mas existem divergências significativas entre organizações internacionais. Enquanto a nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos sugere aumentar a ingestão de proteína animal, a Organização Mundial da Saúde recomenda quantidades mais moderadas.

"Os Estados Unidos recomendam 1,2 a 1,6 gramas de proteína por quilo, enquanto a Organização Mundial da Saúde indica de 0,8 até 1,2 gramas", esclarece a nutricionista e pesquisadora da USP, Sophie Deram.

O mito do "quanto mais proteína, mais músculo"

Um equívoco comum entre praticantes de musculação é acreditar que o aumento no consumo de proteína resulta diretamente em maior ganho muscular. Sophie Deram desfaz esse mito: "Depende do que você come e de quanto você malha, não é consumindo, se entupindo de proteína que você vai ganhar músculo".

O corpo humano possui uma capacidade limitada de aproveitamento proteico por refeição – aproximadamente 25 a 30 gramas. Qualquer quantidade que exceda esse limite pode ser convertida em gordura corporal, contrariando os objetivos de muitos consumidores.

Riscos renais e um caso alarmante

O consumo excessivo de proteína representa um risco particularmente grave para pessoas com predisposição a doenças renais. Para indivíduos com função renal comprometida, dietas hiperproteicas podem acelerar significativamente a perda de funcionamento dos rins.

A reportagem apresenta o caso do ex-atleta Tiago Guzoni, de 30 anos, que aumentou drasticamente sua ingestão proteica para ganhar massa muscular. "Quando eu não conseguia bater os macros do dia, aumentava essa proteína com hipercalórico, shakes ou comendo bastante filé de frango, carne, peixe", relata Tiago.

Após dois anos seguindo essa rotina, começou a sentir fortes dores de cabeça durante os treinos. Um endocrinologista descobriu que seus rins estavam funcionando apenas 50%. Tiago passou oito meses em hemodiálise e, em 2024, precisou de um transplante renal. Só então descobriu que o problema havia sido identificado tardiamente.

Alimentos naturais versus produtos industrializados

Para entender melhor as opções disponíveis, nutricionistas compararam produtos proteicos industrializados com alimentos naturais. Filipe Bragança, conselheiro da BrasNutri, oferece um exemplo ilustrativo: "Uma barrinha de proteínas tem em torno de 12 a 15 gramas de proteína. Um ovo tem 6,5 gramas. Então temos dois ovos com 13 gramas de proteínas".

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No entanto, enquanto os alimentos in natura oferecem vitaminas, minerais e fibras essenciais, muitos produtos industrializados contêm quantidades significativas de gordura saturada e menos nutrientes benéficos.

"A barrinha de proteína vem com gordura saturada. Muitas delas têm bastante gordura saturada, então não é interessante consumirmos frequentemente", alerta Filipe Bragança.

A importância da alimentação equilibrada

Os especialistas são unânimes em afirmar que, para a maioria da população, uma alimentação balanceada é suficiente para suprir as necessidades proteicas diárias. Lara Natacci reforça: "Se comermos comida de verdade, um prato com arroz, feijão, carne e salada, conseguiremos atingir a necessidade de proteína sem necessidade de suplementação".

A recomendação básica permanece em torno de 1 grama de proteína por quilo de peso corporal por dia – distribuída ao longo das refeições, e não concentrada em uma única refeição. Para grupos específicos, como idosos ou pessoas em tratamento para ganho de massa muscular, as necessidades podem ser maiores, mas sempre com acompanhamento profissional.

O caso de Tiago Guzoni serve como alerta importante: hoje, com acompanhamento nutricional adequado, ele mantém uma dieta equilibrada e controla rigorosamente sua ingestão de proteínas e carboidratos – uma mudança que trouxe mais consciência sobre seu corpo e os exageros do passado.