Estudo investiga impacto da alimentação na sobrevivência após câncer
Uma pesquisa publicada na revista Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention da Associação Americana para Pesquisa do Câncer (AACR) analisou como o consumo de alimentos ultraprocessados pode interferir na longevidade de sobreviventes de câncer. O estudo, conduzido por Marialaura Bonaccio do IRCCS Neuromed na Itália, revelou que esses produtos estão associados a um aumento significativo no risco de mortalidade.
Metodologia e participantes da pesquisa
Os pesquisadores analisaram dados do Estudo Moli-sani, que acompanhou 24.325 adultos italianos com 35 anos ou mais por 15 anos. Dentro desse grupo, foram identificados 802 sobreviventes de câncer, sendo 476 mulheres e 326 homens, que forneceram informações sobre sua dieta através de questionários. A coleta de dados ocorreu, em média, 8,4 anos após o diagnóstico inicial.
Os alimentos foram classificados usando o sistema NOVA, desenvolvido pelo epidemiologista brasileiro Carlos Monteiro, que categoriza itens alimentares com base no grau de processamento industrial. Os ultraprocessados são definidos como formulações industriais prontas para consumo, contendo aditivos como açúcares, gorduras, corantes e aromatizantes.
Resultados alarmantes sobre consumo de ultraprocessados
Ao longo do acompanhamento, 281 dos 802 sobreviventes de câncer faleceram. A análise mostrou que aqueles com o maior consumo de alimentos ultraprocessados, considerando o peso total ingerido, apresentaram um risco 48% maior de morte por todas as causas e 57% maior de morte por câncer, em comparação com o grupo de menor consumo.
Quando o cálculo foi baseado na proporção de calorias provenientes desses alimentos, a associação permaneceu significativa para mortalidade por câncer, mas não para outras causas. Bonaccio explicou que essa diferença se deve a variações técnicas, pois alguns alimentos ocupam volume mas têm poucas calorias, enquanto outros concentram energia em porções menores.
Inflamação crônica como fator explicativo
Os pesquisadores investigaram sinais do funcionamento do organismo, incluindo indicadores de inflamação, metabolismo e saúde cardiovascular. Quando esses fatores foram considerados, especialmente sinais de inflamação crônica e frequência cardíaca em repouso, a relação entre alto consumo de ultraprocessados e risco de morte diminuiu em cerca de um terço.
Isso sugere que a inflamação crônica e a sobrecarga do sistema cardiovascular ajudam a explicar parte dessa associação, afirmou Bonaccio. Ela destacou que o processamento industrial, com aditivos e técnicas, pode contribuir para piores desfechos a longo prazo entre sobreviventes de câncer.
Limitações e orientações práticas
O estudo é observacional, o que significa que não estabelece uma relação de causa e efeito direta. As informações sobre alimentação foram autorrelatadas pelos participantes, podendo conter imprecisões, e os hábitos alimentares podem ter mudado ao longo do tempo.
Apesar das limitações, Virgílio Souza, vice-líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A.C.Camargo, ressaltou que os achados reforçam orientações já presentes no acompanhamento oncológico. É um estudo importante, com mais de 800 pacientes e um seguimento médio de quase 15 anos, o que dá robustez aos resultados, avaliou.
Na prática, isso reforça a recomendação para pacientes que já passaram pelo tratamento inicial: reduzir alimentos ultraprocessados e priorizar alimentos frescos ou minimamente processados. Além disso, a prática regular de atividade física após o tratamento está associada à redução da mortalidade e do risco de recorrência da doença.
O paciente que passou por um tratamento oncológico precisa ser olhado para além do controle da doença, disse Souza, enfatizando que manter um bom padrão alimentar e a atividade física são pilares fundamentais para a qualidade de vida e longevidade.



