Terapia CAR-T: tratamento revolucionário contra o câncer enfrenta desafios de custo no Brasil
Terapia CAR-T: revolução no câncer com desafios no Brasil

Terapia CAR-T: uma revolução no tratamento do câncer com desafios de implementação

Um dos maiores desafios contemporâneos no combate ao câncer reside na busca por medicamentos que ofereçam menores efeitos colaterais e taxas de remissão mais elevadas. Nesse contexto, a terapia com células CAR-T emerge como um tratamento verdadeiramente revolucionário, sendo classificada como uma imunoterapia personalizada. Ela atua como um "medicamento vivo", reprogramando geneticamente as células de defesa do próprio paciente para identificar e atacar as células cancerígenas de maneira precisa.

Personalização e custos: os principais obstáculos

O aspecto mais singular e inovador desse tratamento é a sua natureza sob medida, adaptada ao sistema imunológico de cada indivíduo, configurando-se assim como uma forma avançada de medicina de precisão. Contudo, é exatamente essa personalização que gera um dos maiores entraves para a ampliação e aceleração da sua implementação no Brasil, especialmente no sistema público de saúde: os custos elevadíssimos de produção.

Disponibilidade global e no Brasil

A terapia CAR-T já está disponível e em uso em diversos países, incluindo nações da Europa, Estados Unidos, China, Japão e também no Brasil, onde tem demonstrado resultados excelentes em casos de remissão em pacientes com leucemia, linfoma e mieloma múltiplo. Atualmente, o país conta com três produtos aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa):

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  • Kymriah (tisagenlecleucel), da Novartis, o primeiro registro aprovado, indicado para crianças e adultos jovens com Leucemia Linfoblástica Aguda de células B e para adultos com Linfoma Difuso de Grandes Células B.
  • Yescarta (axicabtageno ciloleucel), da Gilead/Kite Pharma, destinado ao tratamento de pacientes adultos com Linfoma Difuso de Grandes Células B e Linfoma de Células do Manto.
  • Carvykti (ciltacabtagene autoleucel), do laboratório Johnson and Johnson, aprovado para pacientes com Mieloma Múltiplo recidivado ou refratário.

Infelizmente, apesar dessas aprovações, a terapia ainda não foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS), devido aos altos custos envolvidos na produção e em todo o processo. Portanto, o grande desafio atual é democratizar o acesso, investindo no preparo dessas células diretamente nos centros de tratamento onde os pacientes estão localizados. É nessa frente que instituições como o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a Fiocruz, o Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein e a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto concentram seus esforços.

Buscando soluções de baixo custo para o SUS

Os pesquisadores brasileiros têm se dedicado não apenas a ampliar a disponibilidade da terapia CAR-T no país, mas também a encontrar soluções mais acessíveis financeiramente, visando a futura implantação no SUS. Um exemplo notável é a tentativa de substituir o vetor viral por um sistema não viral. Este sistema utiliza um fragmento de DNA que, ao ser inserido na célula, induz a produção da molécula CAR. Com essa estratégia, espera-se gerar células CAR-T em apenas oito dias, acelerando significativamente o protocolo tradicional, que pode levar mais de um mês quando utiliza células CAR-T comerciais.

Após passar por validações pré-clínicas, esse projeto está na fase de elaboração da documentação regulatória para submissão à Anvisa. O objetivo é validar a estratégia em um ensaio clínico com pacientes portadores de leucemia. Essa plataforma não viral permitirá validar novas versões de células CAR-T com uma fabricação a uma fração do custo atual.

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Inovações em moléculas e anticorpos

Outra iniciativa recente envolve o desenvolvimento de novas moléculas de CAR para uso nas terapias em evolução. Os CARs são proteínas artificiais, baseadas em anticorpos, projetadas com base em conhecimentos avançados de biotecnologia para que os linfócitos T se transformem em células CAR-T. Desde 2020, um consórcio com a Universidade de Brasília (UnB) e grupos da Fiocruz do Ceará e do Centro Pasteur-Fiocruz tem trabalhado nesse desenvolvimento, demonstrando a capacidade nacional para criar essa tecnologia integralmente em laboratório ou a partir de anticorpos produzidos por animais imunizados com proteínas humanas alvo.

Adicionalmente, os pesquisadores têm explorado a geração de CARs a partir de anticorpos de lhamas. Os camelídeos, como as lhamas, produzem anticorpos mais simples e menores, o que oferece vantagens biotecnológicas significativas. Sim, são lhamas no interior do Ceará contribuindo para a ciência!

Parcerias internacionais e avanços colaborativos

Uma parceria internacional visa transferir o know-how de produção de células CAR-T do Children’s Hospital da Philadelphia (CHOP) para o INCA, permitindo o tratamento de pacientes pediátricos com câncer de maneira similar. Financiado pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, o projeto está na fase final de ajustes logísticos, com previsão de atender até 20 pacientes pediátricos com Leucemia Linfoblástica Aguda refratária ou recidivada ao longo de três anos. A colaboração inclui treinamento de equipes e compartilhamento de conhecimentos, com as células sendo preparadas localmente, substituindo o envio ao exterior.

Outra iniciativa resulta de um acordo de colaboração entre a Fiocruz e a organização norte-americana sem fins lucrativos Caring Cross, envolvendo transferência de tecnologia para produção de células CAR-T e vetores lentivirais. Ensaios clínicos para cânceres hematológicos em adultos serão conduzidos, utilizando um contêiner customizado como sala limpa para produção de terapias celulares próximo aos locais de tratamento. O INCA cuidará dos seus pacientes e acolherá também indicados por outras instituições, com possibilidade de replicar o modelo em outras cidades.

Esse arranjo evidencia o poder de mobilização das instituições públicas federais, combinando a capacidade produtiva da Fiocruz com a excelência em tratamento oncológico do INCA. Os primeiros pacientes devem receber tratamento entre o final de 2026 e início de 2027, refletindo o compromisso em oferecer opções inovadoras e promissoras para resultados mais eficazes e esperança renovada no controle da doença.