O diagnóstico de um tumor renal frequentemente leva a um cenário temido: a retirada completa do órgão. No entanto, uma inovação desenvolvida por um médico brasileiro promete mudar esse paradigma, especialmente para os casos mais desafiadores. O urologista Felipe de Almeida e Paula, natural de Presidente Prudente (SP), criou uma técnica pioneira mundialmente para localizar e remover tumores renais endofíticos – aqueles que crescem para dentro do rim – sem a necessidade de nefrectomia (remoção do órgão).
O desafio dos tumores "invisíveis"
Em entrevista ao g1, o Dr. Felipe de Paula, mestre e doutor em oncologia pelo AC Camargo Cancer Center, explicou a complexidade dos tumores endofíticos. Enquanto a maioria dos tumores renais se projeta para fora, como uma "orelhinha", facilitando sua visualização durante a cirurgia, cerca de 10% a 15% dos casos são endofíticos. "Quando você tira a capa de gordura do rim, você olha e não consegue saber onde está o tumor", descreve o especialista.
Atualmente, o padrão para localizar essas lesões é o ultrassom laparoscópico intraoperatório. Contudo, este equipamento tem alto custo e não está disponível em todos os hospitais. Além disso, nem sempre é eficaz. Na ausência dele, os cirurgiões precisam abrir o rim e iniciar uma verdadeira corrida contra o tempo. O órgão é isolado da circulação sanguínea, e o médico tem cerca de 25 minutos para encontrar e retirar o tumor antes que o rim sofra danos irreversíveis, semelhantes a um infarto. Muitas vezes, o tempo se esgota e a única solução é a retirada completa.
A solução simples e genial: o "Agulhamento de Prudente"
A inspiração para a solução veio de uma prática já consolidada em outra especialidade: a mastologia. "Eu tive a ideia de trazer o que se faz no tumor de mama da mulher: a marcação pré-operatória", revelou Felipe de Paula. No procedimento mamário, uma agulha guiada por imagem deixa um fio metálico flexível no local exato do nódulo, orientando o cirurgião.
O médico adaptou essa técnica para o rim, criando o ARgTC – Agulhamento Renal guiado por Tomografia Computadorizada, carinhosamente apelidado de "Agulhamento de Prudente". Antes da cirurgia, o paciente passa por uma tomografia. Com a imagem de precisão, os médicos inserem uma agulha que deposita um fino fio metálico no ponto exato do tumor. Esse fio, que não causa danos ao tecido, serve como um guia infalível para o cirurgião.
"Parece uma coisa boba, mas nunca tinha sido feito no mundo. Totalmente inédito. É uma coisa simples, que a gente tem a possibilidade de impactar com bons resultados e a custo muito baixo", comemora o urologista.
Resultados comprovados e futuro promissor
Após aprovação dos comitês de ética, como a CONEP, a técnica foi testada em 20 pacientes de Presidente Prudente e região, que são acompanhados há cinco anos. A tese de doutorado foi defendida com sucesso em 15 de dezembro de 2025.
Os resultados foram excepcionais: 100% de sucesso oncológico. Todos os tumores foram localizados e removidos com margens livres, preservando o rim dos pacientes. Não houve complicações graves relacionadas ao método, que ainda reduziu significativamente o tempo de isquemia (interrupção do fluxo sanguíneo) durante a operação.
Uma das maiores vantagens destacadas é a acessibilidade. A técnica pode ser reproduzida em qualquer hospital que possua um aparelho de tomografia, utilizando agulhas de baixo custo já disponíveis em centros oncológicos. "Fazendo a análise de procedimento, ele chega a ser às vezes até 10 vezes mais barato fazer com a agulha do que com o uso do ultrassom", complementa o médico.
A inovação já ganhou o mundo, sendo apresentada em congressos nos Estados Unidos (Chicago em 2019 e Las Vegas em 2021), em São Paulo (2022 e 2024) e no Panamá (2023). O próximo passo é a divulgação e disseminação da técnica no Brasil e nas Américas Latina e Central, através do Latin American Renal Cancer Group (LARCG).
Felipe de Paula, que não tem retornos financeiros com a pesquisa, resume sua motivação: "Quero para as pessoas a mesma coisa que eu quero para mim. É gratificante entregar algo que é bom para todos". O "Agulhamento de Prudente" se mostra, assim, não apenas uma inovação técnica, mas um avanço humanitário na luta contra o câncer renal.