Uma nova e grave crise política coloca em risco a autonomia do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. O presidente da instituição, Jerome Powell, revelou no domingo, 11 de janeiro de 2026, que foi alvo de uma intimação do Departamento de Justiça (DOJ), que ameaça processá-lo criminalmente. Powell classificou a ação como parte de uma campanha de assédio do governo de Donald Trump para interferir nas decisões sobre as taxas de juros do país.
O cerco político ao Federal Reserve
Em um comunicado oficial, Jerome Powell foi enfático ao rebater as acusações. Ele afirmou que a notificação recebida não se trata de uma investigação legítima sobre seu depoimento ao Senado em junho passado ou sobre as reformas nos edifícios do Fed. “Esses são pretextos”, declarou Powell. “A ameaça de acusações criminais é uma consequência do fato de o Federal Reserve definir as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que será melhor para o público, em vez de seguir as preferências do Presidente”.
O chefe do banco central americano destacou que a questão central é se a política monetária continuará sendo guiada por evidências econômicas ou se será dirigida por pressão política e intimidação. A intimação será supervisionada pelo Gabinete do Procurador dos Estados Unidos para o Distrito de Columbia.
O pano de fundo: reformas e críticas
O estopim aparente do conflito são as obras de modernização em dois prédios históricos do Fed em Washington: o Edifício Eccles e o da 1951 Constitution Avenue. São as primeiras grandes reformas desde a construção na década de 1930 e incluem a remoção de materiais perigosos como amianto e chumbo.
Donald Trump, no entanto, tem criticado publicamente os custos do projeto. Ele alega que o valor total pode chegar a US$ 3,1 bilhões (cerca de R$ 16 bilhões), superando a previsão inicial de US$ 2,5 bilhões. Em resposta às acusações de Powell, um porta-voz da procuradora-geral Pam Bondi afirmou que ela orientou seus procuradores a priorizarem a investigação de qualquer abuso com dinheiro de contribuintes.
O próprio Trump negou envolvimento direto na investigação em entrevista à NBC News, mas aproveitou para atacar Powell: “Não sei nada sobre isso, mas certamente ele não é muito bom no Fed, e não é muito bom em construir prédios”.
Histórico de tensões e o futuro do mandato
Esta não é a primeira investida de Trump contra a cúpula do Fed. O ex-presidente já chamou Powell de “Sr. Tarde Demais” e “imbecil”, ameaçando demiti-lo por suposta lentidão na redução dos juros. No segundo semestre de 2025, o Fed, de fato, reduziu o custo do crédito três vezes.
A investida ocorre em um momento crucial: o mandato de Jerome Powell à frente do Fed termina em maio de 2026, e Trump se prepara para escolher seu substituto para um dos cargos mais influentes da economia global. Críticos do cerco, inclusive dentro do Partido Republicano, já adiantaram que tentarão bloquear qualquer nomeação enquanto a questão legal não for resolvida.
O senador republicano Thom Tillis, membro da Comissão Bancária do Senado, foi contundente: “Se ainda havia alguma dúvida de que assessores dentro do governo Trump estão ativamente pressionando para acabar com a independência do Federal Reserve, agora não deve haver nenhuma. Agora, a independência e a credibilidade do Departamento de Justiça estão em questão”.
O caso reforça acusações anteriores de que a administração Trump instrumentalizou o Departamento de Justiça para atingir adversários políticos, como a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, e o ex-diretor do FBI, James Comey – processos que posteriormente foram rejeitados pela Justiça.