Ribeirão Preto se consolida como epicentro da reprodução assistida no Brasil
Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, emergiu como um dos principais polos de reprodução humana assistida do país, concentrando números impressionantes que refletem uma transformação profunda no cenário nacional. Segundo dados atualizados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (Sisembrio), plataforma mantida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a cidade abriga um em cada seis embriões congelados em todo o território brasileiro.
Os números que impressionam
Considerando o período compreendido entre 2020 e 2025, o município acumulou a expressiva marca de 113.477 embriões criopreservados. Este volume colossal faz com que Ribeirão Preto responda individualmente por 16,5% de todo o estoque nacional de embriões congelados. Além disso, a cidade concentra 24,1% dos embriões da região Sudeste e impressionantes 31,1% do estado de São Paulo, reconhecido como o maior mercado de reprodução assistida do país.
O processo de criopreservação envolve a fecundação do óvulo pelo espermatozoide realizada em laboratório, através da técnica de Fertilização In Vitro. Os embriões resultantes são então armazenados em tanques especiais de nitrogênio líquido mantidos a temperaturas extremas de -196°C. Esta condição paralisa completamente a atividade biológica dos embriões, impedindo o envelhecimento celular e preservando sua qualidade original indefinidamente, até que as famílias decidam iniciar o processo gestacional.
Uma transformação nacional em uma década
O cenário local reflete uma mudança estrutural que vem ocorrendo em todo o território brasileiro. Em 2015, o Brasil contabilizava 67.359 embriões armazenados em todo o país. Uma década depois, em 2025, esse número experimentou um crescimento exponencial, saltando para 689.063 embriões. Este aumento de mais de dez vezes evidencia uma transformação radical na forma como famílias, e especialmente as mulheres, passaram a encarar o planejamento da maternidade e a gestão do tempo biológico.
Do tratamento médico à ferramenta de autonomia
Se anteriormente a reprodução assistida era buscada quase exclusivamente por casais que enfrentavam dificuldades para engravidar naturalmente, a realidade contemporânea nos consultórios especializados apresenta um panorama completamente diferente. A preservação da fertilidade deixou de ser apenas um recurso médico de exceção para se transformar em uma poderosa ferramenta de autonomia e planejamento de vida.
A engenheira química Nélia Alves de Paula, de 40 anos, tomou há três anos a decisão estratégica de congelar seus óvulos. Sua escolha surgiu após o término de um relacionamento significativo e a conscientização crescente sobre o avanço implacável do relógio biológico. "Eu sempre tive esse sonho intenso de ser mãe e o congelamento de óvulos me fez ficar consideravelmente mais perto dessa realização. Sempre priorizei minha carreira profissional, meus estudos acadêmicos. O relacionamento vinha caminhando ali junto, mas eu nunca conseguia identificar o momento exato para formar uma família", relata Nélia com convicção.
Para esta profissional, que atualmente mantém um novo relacionamento e planeja ativamente a gravidez, o procedimento de criopreservação entregou algo fundamental e intangível: o domínio sobre o tempo. "Remove uma carga enorme da nossa ansiedade e daquela pressão social constante. Porque o nosso relógio biológico vai continuar seu curso inexorável, nós vamos amadurecendo, vamos envelhecendo naturalmente. Portanto, a mulher ter essa possibilidade concreta de um planejamento familiar meticuloso é algo profundamente gratificante. Representa uma segurança tangível de que o sonho de constituir uma família está próximo e pode materializar-se no momento adequado", avalia a engenheira com otimismo.
A perspectiva psicológica do planejamento
A percepção vivenciada por Nélia reflete diretamente o que especialistas em saúde mental observam na prática clínica diária. Para a psicóloga Sarah Silveira, a busca crescente pela criopreservação une harmoniosamente o planejamento racional ao lado emocional mais profundo. "O que eu percebo claramente são dois olhares complementares, e eles não precisam ser distintos, podem caminhar juntos perfeitamente. Existe tanto uma sensação genuína de capacidade de controle, de ser algo que eu posso decidir o dia e o momento exato da concepção, mas, por outro lado, o que eu mais percebo é o componente afetivo predominante. A mulher vai buscar se organizar pragmaticamente e concluir outros projetos de vida no presente, para poder curtir a maternidade num momento futuro, com muito mais contemplação e plenitude existencial", analisa a psicóloga.
Conscientização precoce e dados reveladores
Os dados estatísticos mostram ainda que a conscientização sobre o tempo biológico tem chegado progressivamente mais cedo para as mulheres brasileiras. De 2024 para 2025, o congelamento eletivo de óvulos cresceu consistentemente em todas as faixas etárias. Embora 69% dos procedimentos ainda ocorram em mulheres com 35 anos ou mais, o maior salto percentual foi registrado entre as mais jovens: houve um aumento significativo de 26% no número de ciclos entre mulheres abaixo dos 35 anos.
Para Rebecca Pontelo, ginecologista especialista em reprodução humana do Centro de Fertilidade de Ribeirão Preto (CEFERP), esses números refletem fielmente o que se observa nos consultórios especializados. "Todos os meses recebemos dezenas de mulheres preocupadas legitimamente com o percurso do seu relógio biológico, interessadas ativamente em usar os avanços da ciência para fazê-lo trabalhar strategicamente a seu favor. A criopreservação não se trata fundamentalmente sobre adiar indefinidamente a maternidade, mas sobre ampliar possibilidades reais e reduzir substancialmente a pressão biológica constante", afirma a médica com propriedade.
O congelamento como seguro biológico preventivo
Além do planejamento de vida consciente, a preservação da fertilidade cruza-se frequentemente com a saúde preventiva da mulher. A médica ginecologista Camilla Vidal vivenciou essa realidade na própria pele. Trabalhando em uma clínica especializada em fertilização, ela optou por congelar seus próprios óvulos após passar por duas cirurgias complexas para a retirada de cistos ovarianos, que resultaram na perda irreversível de um dos ovários. "Sabendo dos potenciais impactos duradouros na saúde reprodutiva e sabendo que, naquele momento específico das cirurgias, eu não me via emocionalmente preparada para ser mãe, tinha uma carreira em ascensão e outros projetos pessoais para investir, optei conscientemente pela preservação preventiva", conta Camilla com transparência.
Ela destaca que a autonomia gerada pela tecnologia moderna funciona como uma garantia valiosa para o futuro, já que os óvulos e embriões podem ser congelados por tempo praticamente indeterminado sem perda significativa de qualidade. "A gente brinca que esse congelamento é um seguro biológico, é similar ao seguro de um automóvel: a gente faz porque não quer usar necessariamente, mas se precisar urgentemente, ele está ali disponível. Quando chegou o momento das tentativas naturais, acabei engravidando espontaneamente, mas meus óvulos permanecem ali guardadinhos cuidadosamente caso eu precise para um segundo filho no futuro", detalha a médica com precisão.
Como profissional experiente da área, Camilla observa que a demanda por esses procedimentos só cresce exponencialmente. "A maior parte desses embriões congelados ainda provém de casais que realizaram tratamentos completos de fertilização in vitro e tiveram embriões excedentes. Mas vem aumentando vertiginosamente a procura pelo congelamento focado especificamente na preservação da fertilidade, onde é possível congelar o embrião formado, apenas o óvulo isoladamente ou somente o espermatozoide", finaliza a ginecologista, apontando para as múltiplas possibilidades que a tecnologia contemporânea oferece.



