Polilaminina: esperança para lesões na medula enfrenta corrida judicial no Brasil
Polilaminina: esperança para lesões na medula e corrida judicial

Polilaminina: a esperança que acende uma corrida na Justiça brasileira

Imagine um trem que depende de trilhos perfeitamente conectados para se mover. Se essa sequência é interrompida, a locomotiva para até que o caminho seja reconstruído. Essa analogia descreve com precisão a lógica por trás de uma nova solução para milhares de brasileiros que perderam os movimentos do corpo após sofrerem lesões na medula espinhal.

A medula como via de comunicação

A medula espinhal funciona como o principal caminho para que os comandos do cérebro se espalhem por todo o corpo. Quando ocorre uma lesão nessa estrutura vital, os estímulos neurais não conseguem mais passar, interrompendo a comunicação entre o sistema nervoso central e o restante do organismo. Até recentemente, não existia esperança concreta de "reconectar esses trilhos" neurológicos. Hoje, essa esperança tem nome: Polilaminina.

"É uma droga que vai ser um divisor de águas no tratamento do traumatismo raquimedular atualmente", afirma o médico Dr. Victor, especialista na área. A descoberta representa um avanço significativo na neurociência brasileira, oferecendo novas perspectivas para pacientes que antes enfrentavam prognósticos limitados.

Trinta anos de pesquisa científica

A jornada da polilaminina começou há quase três décadas com os trabalhos da bióloga Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em laboratório, ela desenvolveu uma rede de proteínas chamadas "lamininas", cujo conjunto forma a polilaminina. Esta substância tem a capacidade notável de recuperar os axônios — as extensões dos neurônios que funcionam como pontes para a transmissão de informações nervosas.

A bióloga explica o conceito de forma simples: "Como fazemos para o axônio crescer na vida real? Ele cresce sobre uma pista de laminina. Quando há uma lesão, existe essa pista? Não. E se fornecermos a pista? Ah, ele volta a crescer. Não há nenhuma genialidade nisso, é pura lógica biológica".

Resultados impressionantes em estudos humanos

Os efeitos da polilaminina têm sido documentados em pesquisas acadêmicas. Em um estudo envolvendo oito pacientes com lesão medular completa, os avanços foram considerados históricos pela comunidade científica. "Com lesão completa, o que se observa na literatura médica é que apenas 10% das pessoas recuperam função motora. Em nosso estudo acadêmico, esse índice chegou a 75%", destaca Tatiana Sampaio.

De acordo com o Dr. Marco, outro médico envolvido nas pesquisas, os ganhos proporcionados pelo tratamento mudam radicalmente a autonomia dos pacientes: "O paciente que vivia confinado à cadeira de rodas conseguiu ficar em pé com apoio. Outro que tinha dificuldades motoras começou a conseguir pedalar passivamente em uma bicicleta".

Histórias de superação e recuperação

Diogo trabalhava como instalador de vidros quando sofreu um acidente grave: levou um choque elétrico e caiu de um prédio. O raio-X revelou que sua medula espinhal havia se rompido completamente. Sua irmã, inconformada com o diagnóstico, pesquisou incansavelmente até encontrar informações sobre a polilaminina. Após passar por três hospitais diferentes, Diogo finalmente recebeu a aplicação da substância.

Semanas depois, os primeiros resultados apareceram. "De madrugada, por volta das duas horas da manhã, eu estava mexendo no celular quando algo me disse: mexa o pé. Então, comecei a tentar estabelecer contato com o pé direito e foi o momento em que vi o movimento... o pé inteiro se movendo para frente e para trás. Perguntei a mim mesmo: é isso mesmo que estou vendo? Chamei e acordei minha esposa. Foi um momento de intensa emoção, começamos a chorar", relata Diogo emocionado.

Atualmente, ele já recuperou o controle da bexiga e consegue realizar movimentos de joelhada e "gol de coxa". A sensibilidade, que antes parava na altura do peito, desceu até o diafragma. "Consigo contrair também a barriga", comemora o paciente, que continua sua jornada de reabilitação.

A corrida judicial pelo tratamento

Enquanto aguardam o início dos testes clínicos oficiais, pacientes em todo o Brasil têm acionado o sistema judiciário em busca do tratamento com polilaminina. Até o momento, 55 pacientes entraram com ações na Justiça solicitando acesso à substância, sendo que 30 já foram aprovados — incluindo Diogo e Mirian, que fraturou a coluna após cair da escada de sua própria casa.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforça que apenas ensaios clínicos controlados podem comprovar definitivamente a segurança e eficácia de qualquer tratamento, mas permite o chamado "uso compassivo" quando o paciente não atende aos critérios de inclusão em um ensaio clínico formal.

"Compassivo vem de compaixão. Quando não há mais nada a fazer, então faça-se o que é possível", explica representante da farmacêutica Cristália, empresa que patenteou a fabricação da polilaminina no Brasil.

O fator tempo: uma corrida contra o relógio

A aplicação da polilaminina é realizada por neurocirurgiões que viajam por todo o país. "Agora estamos no aeroporto de Campinas em direção a Campo Grande para voltar ainda hoje à noite para o Rio de Janeiro", relata o Dr. Bruno, um dos médicos envolvidos no tratamento.

No entanto, existe um limite crítico que determina a eficácia do tratamento: o tempo. Para obter os melhores resultados, a polilaminina deve ser injetada preferencialmente até três dias após o trauma. Isso ocorre porque a medula espinhal começa a formar uma cicatriz ao redor dos axônios lesionados. "Quanto mais tempo de cicatrização, mais difícil é a ação da polilaminina", explicam os pesquisadores envolvidos no desenvolvimento da substância.

Esse fator tempo fez toda a diferença para Bruno (homônimo do médico), tratado em 2018 menos de 24 horas após sofrer um acidente: "Eu quebrei o pescoço. Quando fiz meu primeiro movimento, três semanas depois, consegui mexer o dedão do pé. Um ano depois, já estava andando com bengala e, logo em seguida, começando a andar de forma independente".

Bruno saiu da classificação "A" (sem movimentos) diretamente para a "D" (força e sensibilidade para quase todos os movimentos), demonstrando o potencial transformador do tratamento quando aplicado no momento adequado.

Controvérsias e cuidados necessários

Nem todos os especialistas concordam com a aplicação em massa da polilaminina antes da conclusão dos testes clínicos definitivos. Marcelo, médico da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), alerta: "Se você começar a ter essa aplicação em massa sem o controle adequado, sem o rigor científico necessário, não saberá exatamente como a droga está funcionando. Se ocorrer algum evento adverso, como vamos saber lidar com isso?".

Recentemente, quatro pacientes que receberam a substância vieram a falecer. Segundo a equipe de pesquisa, não há evidências que comprovem ligação direta entre as mortes e o tratamento com polilaminina.

Além disso, é importante destacar que a polilaminina não é indicada para lesões medulares incompletas. "Eu correria o risco de até perder os movimentos que ainda tenho", explica a repórter Flávia Oliveira, que possui esse tipo de lesão e consegue sentir partes do corpo e realizar pequenos movimentos.

A reabilitação como parte essencial do processo

Os especialistas enfatizam que não basta apenas a aplicação da substância; a fisioterapia intensiva é componente indispensável do tratamento. Mirian, em Londrina, realiza sessões de fisioterapia seis vezes por semana e já apresenta alguns reflexos e áreas de sensibilidade recuperadas.

Já Diogo enfrenta dificuldades adicionais: em Nova Friburgo, ele não tem acesso à reabilitação especializada necessária para otimizar seus resultados. "O que falta são mais centros de reabilitação de qualidade para esse tipo de paciente? Completamente", afirma Tatiana Sampaio, destacando um dos grandes desafios do sistema de saúde brasileiro.

O futuro da polilaminina no Brasil

A Anvisa aprovou o início de um estudo clínico oficial para o próximo mês, marcando uma etapa crucial no processo de regulamentação da polilaminina. Se as três fases de testes forem bem-sucedidas, a substância poderá estar disponível no mercado brasileiro em até cinco anos.

"Nosso desejo é que isso seja absorvido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), para que todas as pessoas possam se beneficiar", projeta representante da farmacêutica responsável pela produção da polilaminina, destacando o potencial de democratização do tratamento.

Enquanto isso, a corrida contra o tempo continua para muitos pacientes brasileiros, que veem na polilaminina não apenas uma substância, mas uma verdadeira esperança de recuperar movimentos e autonomia perdidos após traumas medulares.