Polilaminina: a substância brasileira que reacende esperanças na recuperação de lesões medulares
A polilaminina tem sido o centro das atenções nas redes sociais e na comunidade científica brasileira. Desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a farmacêutica Cristália, a substância promete devolver movimentos após lesões na medula espinhal, mas especialistas pedem cautela diante dos primeiros passos do desenvolvimento clínico.
O que é a polilaminina e como funciona?
A polilaminina é derivada da laminina, uma proteína naturalmente presente no organismo humano que participa de processos fundamentais como adesão celular e desenvolvimento do sistema nervoso. Segundo a bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, líder da pesquisa na UFRJ, trata-se de uma molécula com funções primitivas, presente até mesmo em organismos simples como esponjas marinhas.
"Com ela, conseguimos efeito duplo: proteger os neurônios que ainda existem ali e estimular o surgimento de novas unidades", explicou Sampaio em entrevista.
Microscopicamente, a laminina se organiza em uma rede tridimensional que sustenta células e orienta sua migração. A partir desta proteína natural, os pesquisadores desenvolveram a versão reorganizada em laboratório - a polilaminina - com potencial aplicação em lesões da medula espinhal.
Mecanismo de ação na lesão medular
Para compreender o tratamento proposto, é essencial entender o que ocorre quando a medula espinhal sofre uma lesão. A medula, estrutura responsável por conectar o cérebro ao restante do corpo, transmite comandos motores e leva informações sensoriais de volta ao cérebro.
Quando ocorre uma lesão, os axônios (os "fios" dos neurônios) se rompem. O próprio organismo reage formando uma cicatriz no local, criando um ambiente hostil à reconexão neural. A partir desse momento, a comunicação entre cérebro e corpo é interrompida.
A polilaminina seria aplicada diretamente na área lesionada durante procedimento cirúrgico. No local, ela formaria uma espécie de "ponte microscópica", funcionando como estrutura de suporte para orientar o crescimento dos prolongamentos neuronais através da área danificada. Em teoria, isso poderia facilitar a criação de novas rotas neurais e permitir algum grau de recuperação motora.
Resultados observados em pacientes
Desde 2018, a substância vem sendo testada experimentalmente em seis pacientes com lesões medulares classificadas como nível A, quadro em que há perda completa da função motora. Segundo dados divulgados pela equipe em setembro do ano passado, cinco desses pacientes teriam evoluído para nível C, categoria que inclui recuperação parcial de força e mobilidade.
Um dos casos mais divulgados é o de Bruno Freitas, que sofreu um acidente de trânsito aos 23 anos, fraturou a coluna e ficou tetraplégico. Ele recebeu a aplicação da polilaminina nas primeiras 24 horas após o trauma. Ao longo de um ano, passou a apresentar retorno progressivo dos movimentos, inicialmente com a mobilização do dedão do pé e, posteriormente, com recuperação mais ampla. Atualmente, caminha e movimenta os braços sem limitações aparentes.
Autorização da Anvisa e próximos passos
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início de um estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança da polilaminina. Nesta etapa inicial:
- Serão incluídos cinco pacientes, entre 18 e 72 anos
- Todos devem apresentar lesão medular torácica aguda completa (entre T2 e T10), ocorrida há menos de 72 horas
- A aplicação será única e intramedular, durante procedimento cirúrgico
- Será utilizada uma solução injetável de laminina extraída da placenta humana
O foco da fase 1 é exclusivamente segurança, com monitoramento de eventos adversos, desde reações leves até complicações graves ou inesperadas. Entre os riscos que exigem atenção especial está a eventual produção de anticorpos contra a polilaminina, uma resposta imunológica que pode ocorrer quando o organismo reconhece a substância como estranha.
Em comunicado, a Anvisa reforçou que o estudo atual não permite concluir sobre eficácia. Apenas após a conclusão dessa etapa, e caso os resultados sejam satisfatórios, o medicamento poderá avançar para fases posteriores, que envolvem maior número de pacientes e avaliação formal de benefício clínico. No total, o desenvolvimento completo de um medicamento envolve 5 fases, um processo que costuma levar anos.
Por que os especialistas pedem cautela?
Embora os relatos sejam animadores, parte da comunidade científica ressalta limitações importantes. O nutricionista Igor Eckert, que atua com práticas baseadas em evidências, destacou que é indiscutível que alguns pacientes melhoraram após receber a polilaminina. A discussão, segundo ele, é se a melhora pode ser atribuída diretamente à substância.
Um ponto central é que a lesão medular não é necessariamente estática. A literatura mostra que parte dos pacientes classificados inicialmente como nível A pode evoluir espontaneamente para níveis com algum grau de recuperação motora. Estimativas apontam que até 40% podem converter de A para C ao longo do tempo.
Isso significa que a aplicação ocorre em um momento de incerteza clínica, especialmente nas primeiras horas após o trauma, quando ainda pode haver dificuldade para definir o grau real de comprometimento funcional. Além disso, até o momento não há ensaios clínicos randomizados, controlados e revisados por pares que permitam estabelecer nexo causal robusto entre o uso da polilaminina e a recuperação observada.
Questão da patente e financiamento
Em entrevista, Sampaio afirmou que detinha a patente nacional da substância, mas perdeu a patente internacional em razão de cortes de verbas federais entre 2015 e 2016. Segundo ela, chegou a arcar pessoalmente com custos para manter o registro nacional à época. Atualmente, o laboratório Cristália detém a patente do processo de formulação, enquanto a patente internacional teria sido definitivamente perdida.
A pesquisa com a polilaminina representa um marco importante para a ciência brasileira, mas especialistas concordam que é necessário aguardar os resultados dos estudos clínicos controlados antes de celebrar uma possível revolução no tratamento de lesões medulares. O caminho até um medicamento aprovado é longo e requer rigor científico em todas as etapas.



