Dieta low-carb ou low-fat? Estudo revela que qualidade dos alimentos importa mais para o coração
Nas últimas décadas, o debate sobre dietas populares oscilou entre abordagens com baixo teor de gordura e baixo teor de carboidratos, gerando dúvidas sobre qual seria mais eficaz para a saúde cardiovascular. Agora, uma pesquisa publicada na prestigiada revista científica JAMA traz novas perspectivas para essa discussão, mostrando que o segredo não está em escolher entre um ou outro, mas sim na qualidade dos alimentos consumidos.
Metodologia abrangente com décadas de acompanhamento
O estudo acompanhou aproximadamente 198 mil homens e mulheres nos Estados Unidos por mais de 30 anos, utilizando questionários detalhados aplicados a cada dois a quatro anos. Os pesquisadores analisaram diferentes versões de dietas low-carb e low-fat, mas com uma abordagem inovadora: em vez de focar apenas nas proporções de nutrientes, eles classificaram os padrões alimentares de acordo com a qualidade das fontes.
A análise considerou:
- Alimentos de origem animal versus vegetal
- Grãos integrais versus refinados
- Gorduras insaturadas versus saturadas
Resultados reveladores sobre risco coronariano
Durante o período de estudo, foram registrados mais de 20 mil casos de doença coronariana, caracterizada pela obstrução das artérias do coração por placas de gordura. Os resultados demonstraram claramente que simplesmente cortar carboidratos ou gorduras não é suficiente para proteger a saúde cardiovascular.
Entre os participantes que seguiam dietas low-carb baseadas principalmente em produtos de origem animal, como carnes vermelhas e processadas (incluindo bacon, salsicha e presunto), o risco de doença coronariana foi significativamente maior. Por outro lado, aqueles que adotavam uma versão "saudável" da low-carb, rica em proteínas vegetais, gorduras insaturadas e carboidratos de boa qualidade, apresentaram risco 15% menor de desenvolver a doença.
O mesmo padrão se repetiu nas dietas com baixo teor de gordura. As versões consideradas saudáveis - com maior presença de alimentos integrais, vegetais e fontes de gordura de melhor qualidade - estiveram associadas a uma redução de risco de 13%. Já as versões "não saudáveis", marcadas por carboidratos refinados e alimentos ultraprocessados, aumentaram o risco cardiovascular.
Análise metabólica complementa descobertas
O estudo incluiu uma camada adicional de análise através de perfis metabolômicos, que permitem identificar substâncias circulantes no sangue associadas ao metabolismo. As versões saudáveis de ambas as dietas estiveram relacionadas a:
- Níveis mais baixos de triglicerídeos
- Maiores concentrações de HDL (o "bom colesterol")
- Redução da proteína C-reativa ultrassensível, marcador de inflamação
- Perfis metabólicos considerados favoráveis, com maior presença de ácido 3-indolpropiônico (associado à saúde intestinal)
- Níveis menores de valina, aminoácido ligado ao risco cardiometabólico
Os padrões alimentares classificados como não saudáveis mostraram resultados opostos em todos esses marcadores metabólicos.
Flexibilidade alimentar como estratégia eficaz
Para Zhiyuan Wu, PhD e principal autor do estudo, a descoberta mais importante é que tanto as dietas saudáveis com baixo teor de carboidratos quanto as com baixo teor de gordura estão associadas a reduções semelhantes no risco de doenças cardíacas, mesmo quando enfatizam composições diferentes de macronutrientes.
"Nossos resultados sugerem que a qualidade da dieta e as fontes alimentares importam mais do que simplesmente cortar gordura ou carboidratos", afirmou Wu ao JAMA.
Qi Sun, professor associado de nutrição e epidemiologia em Harvard e autor sênior do trabalho, destacou que os alimentos priorizados na pesquisa coincidem com aqueles valorizados por modelos já consolidados, como a dieta mediterrânea e a dieta DASH.
Limitações e perspectivas futuras
Os pesquisadores reconhecem algumas limitações do estudo. Os participantes eram majoritariamente profissionais de saúde, o que pode limitar a generalização dos resultados para a população em geral. Além disso, a pesquisa não avaliou padrões mais extremos, como a dieta cetogênica, na qual os carboidratos costumam representar cerca de 5% da ingestão energética total.
Dariush Mozaffarian, especialista que comenta a evolução das evidências na área, observa que a obsessão coletiva por macronutrientes costuma seguir modas passageiras. "Já nos fixamos nas dietas com baixo teor de gordura, depois nas low-carb e agora estamos obcecados por proteína", afirmou ao JAMA, referindo-se à proliferação de ultraprocessados que se vendem como saudáveis por serem "ricos em proteína".
A mensagem final do estudo é clara e menos sensacionalista do que muitas dietas da moda: não se trata de demonizar carboidratos ou gorduras, pois ambos são importantes para o funcionamento adequado do corpo. O verdadeiro segredo para a saúde cardiovascular está menos em cortar grupos alimentares inteiros e mais em fazer escolhas inteligentes à mesa, priorizando alimentos in natura ou minimamente processados, com destaque para fontes vegetais e gorduras de boa qualidade.



