Leucemia: entenda a doença que afeta a fábrica do sangue
A leucemia representa um tipo específico de câncer que ataca diretamente as células sanguíneas, tendo sua origem na medula óssea, que é o órgão responsável pela produção de todos os componentes do sangue. De maneira simplificada, pode-se comparar a medula óssea a uma fábrica que, ao adoecer, começa a operar de forma completamente desorganizada, gerando células defeituosas que não desempenham suas funções adequadas e ainda impedem o desenvolvimento das células saudáveis. No cenário brasileiro, as projeções do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam aproximadamente 12 mil novos diagnósticos a cada ano durante o triênio de 2026 a 2028, destacando a importância do tema para a saúde pública.
Classificação e características da doença
A classificação da leucemia ocorre principalmente através de dois critérios fundamentais: a velocidade de progressão da enfermidade e o tipo celular que é afetado. Quando a evolução é acelerada, estamos diante das leucemias agudas; já quando o desenvolvimento é mais lento e gradual, trata-se das formas crônicas. Em relação às células impactadas, a doença pode ser categorizada como linfoide ou mieloide. "Nas manifestações agudas, a patologia avança com grande rapidez e exige o início imediato da terapia. Por outro lado, nas variações crônicas, a progressão tende a ser mais moderada e, em determinadas situações, pode permanecer estável por um período considerável", esclarece a hematologista Gabriela Matias, da Oncomed-MT.
Sintomas e diagnóstico: a corrida contra o tempo
Os primeiros sinais da leucemia frequentemente são confundidos com outras condições médicas, como a anemia comum. "Fadiga extrema, palidez cutânea, infecções recorrentes, sangramentos inexplicáveis e o aparecimento de manchas arroxeadas pelo corpo constituem importantes sinais de alerta", ressalta a especialista. O ponto de partida para a investigação é a realização de um hemograma completo. "Trata-se de um exame bastante simples e acessível, que já pode revelar alterações significativas. Uma vez confirmada a suspeita, o encaminhamento para um hematologista deve ser imediato, visando o diagnóstico definitivo e o início do tratamento". Segundo a médica, a agilidade no começo da terapia é absolutamente decisiva, principalmente nas formas agudas da doença, que são naturalmente mais agressivas.
Tratamentos disponíveis e papel da radioterapia
A base terapêutica para a leucemia continua sendo a quimioterapia convencional. Para pacientes classificados como de alto risco, o transplante de medula óssea pode ser indicado como uma etapa fundamental para consolidar a remissão da doença. Se a leucemia desorganiza completamente a fábrica do sangue, o transplante representa a esperança de reconstruí-la. Antes da implantação dessa nova medula, é crucial preparar o organismo para recebê-la adequadamente. Alguns pacientes passam pela Irradiação de Corpo Inteiro (Total Body Irradiation – TBI), uma modalidade específica de radioterapia utilizada como etapa de condicionamento pré-transplante.
"A radioterapia funciona como uma preparação minuciosa do terreno biológico. Precisamos reduzir ao máximo as células doentes, diminuir significativamente o risco de rejeição e abrir espaço suficiente para que as células transplantadas consigam crescer e se desenvolver", explica o radio-oncologista Antônio Cássio Pellizzon, consultor de radioterapia da Oncomed. No regime denominado mieloablativo, a técnica atua em três frentes principais:
- Elimina células cancerígenas que possam permanecer em locais de difícil acesso à quimioterapia, conhecidos como 'santuários', como o sistema nervoso central e, nos homens, os testículos.
- Promove uma redução controlada e planejada da imunidade do paciente.
- Elimina as células da própria medula óssea do indivíduo, permitindo que a nova medula transplantada ocupe esse espaço vital.
Já no regime de intensidade reduzida, são utilizadas doses menores de radiação, com foco principal na imunossupressão, para evitar qualquer tipo de rejeição durante o transplante. "A escolha do regime ideal depende do tipo específico de leucemia, do risco associado à doença, da idade do paciente e de suas condições clínicas gerais. Em casos mais agressivos, optamos por protocolos mieloablativos. Em situações específicas, principalmente quando o paciente não toleraria doses tão elevadas, indicamos o regime de intensidade reduzida. O objetivo final é sempre aumentar as chances de 'pega' da medula com a máxima segurança possível", complementa o especialista.
Avanços tecnológicos no tratamento
Utilizada há mais de vinte anos e considerada padrão na literatura médica internacional, a técnica de irradiação evoluiu significativamente com os avanços tecnológicos recentes. Equipamentos mais modernos e precisos, como a máquina de radioterapia Radixact, que deve chegar à Oncomed ainda este ano, permitem uma aplicação muito mais precisa das doses necessárias. Em determinados casos, essa tecnologia possibilita irradiar especificamente a medula óssea e os tecidos linfáticos, reduzindo drasticamente a exposição de outros órgãos saudáveis e, consequentemente, minimizando os efeitos colaterais indesejados do tratamento.



