Jejum intermitente pode não cumprir promessas de emagrecimento, revela ampla análise científica
Uma revisão abrangente de estudos científicos publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews trouxe resultados que desafiam a popularidade do jejum intermitente como método eficaz para perda de peso. A análise, que examinou dados de 22 pesquisas envolvendo quase 2.000 participantes, concluiu que essa abordagem alimentar pode fazer pouca ou nenhuma diferença na redução de peso quando comparada às recomendações tradicionais de dieta.
Metodologia e principais conclusões
Os pesquisadores concentraram-se em estudos que avaliaram o jejum intermitente de curto prazo, com duração de até 12 meses, comparando sua eficácia com orientações padrão sobre alimentação saudável ou ausência de recomendações específicas. A prática, que ganhou notoriedade nos últimos anos, apresenta diferentes formatos:
- Alimentação restrita a períodos específicos do dia
- Jejum em determinados dias da semana
- Alternância entre dias de alimentação normal e dias com consumo calórico bastante reduzido
Um exemplo conhecido é a "dieta 5:2", que prevê redução significativa de calorias em dois dias não consecutivos durante a semana.
Evidências limitadas e necessidade de cautela
Luis Garegnani, autor principal do estudo e pesquisador do Hospital Universitário Italiano de Buenos Aires, expressou preocupação com o entusiasmo desproporcional em torno do jejum intermitente nas redes sociais. "Pode ser uma opção razoável para algumas pessoas, mas as evidências atuais não justificam o fervor que observamos online", afirmou o especialista.
Os cientistas identificaram várias fragilidades nos estudos analisados, incluindo metodologias não robustas e amostras reduzidas de participantes, o que limita a relevância estatística e a possibilidade de generalização dos resultados.
Individualidade e perspectivas futuras
Eva Madrid, autora sênior da pesquisa, destacou a importância da abordagem individualizada: "Os médicos precisarão considerar as características específicas de cada paciente ao aconselhar sobre estratégias de perda de peso".
Os pesquisadores reconhecem que o jejum intermitente pode trazer benefícios para a saúde geral através de mudanças em funções corporais, mas ressaltam que essa hipótese ainda carece de evidências científicas mais sólidas. O estudo também aponta a necessidade de mais pesquisas para avaliar o impacto da prática em condições como diabetes tipo 2 e outras doenças, além de investigar como diferentes tipos de jejum afetam homens e mulheres separadamente.
Reação da comunidade científica
Baptiste Leurent, professor associado de estatística médica no University College London, comentou sobre o "desalinhamento entre a percepção pública e as evidências científicas" em relação ao jejum intermitente. Já Keith Frayn, professor emérito de metabolismo humano na Universidade de Oxford, observou que alegações sobre "efeitos especiais no metabolismo" frequentemente associadas à prática podem ter pouca relevância prática.
Embora muitas pessoas considerem o jejum intermitente uma estratégia eficaz para evitar ganho de peso - aspecto não abordado nesta revisão - e a prática tenha sido associada à redução de colesterol e açúcar no sangue, os pesquisadores enfatizam que não existem soluções rápidas para sobrepeso e obesidade além da redução consistente da ingestão calórica.



