Fisioterapeuta com doença rara supera tetraplegia cinco vezes e inspira com resiliência
A fisioterapeuta Roberta Rodrigues, de 33 anos, natural de Santa Fé de Goiás, cidade com aproximadamente cinco mil habitantes, já enfrentou a tetraplegia completa em cinco ocasiões distintas ao longo de sua vida. Essa condição extrema resulta de uma doença neurológica rara e autoimune que a acompanha desde 2008, mas que nunca a impediu de retomar seus estudos, sua carreira e seus planos com determinação extraordinária.
Trajetória profissional e enfrentamento da doença
Formada pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) como fisioterapeuta intensivista, Roberta construiu uma carreira notável. Ela concluiu residência, obteve o primeiro lugar em processos seletivos e em um concurso federal, atuando atualmente como preceptora no Hospital das Clínicas. Durante a pandemia de Covid-19, trabalhou na linha de frente e se tornou uma referência na defesa da humanização nos serviços de saúde. "Ou eu estava doente ou estava correndo atrás do meu futuro de forma muito acelerada. Porque o tempo me foi tomado", relata a profissional, destacando a intensidade com que vive cada momento.
Do Guillain-Barré à Polineuropatia Inflamatória Desmielinizante Crônica
A primeira crise grave ocorreu em 2008, poucas horas após Roberta receber a vacina contra febre amarela. Ela começou a perder os movimentos das pernas, seguidos pelos braços, sendo rapidamente internada em Goiânia. Seu estado se agravou, levando-a a uma parada respiratória e à intubação na UTI. Na época, o diagnóstico foi Síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que paralisa os músculos, incluindo o diafragma, essencial para a respiração. O laudo médico inicial indicou insuficiência respiratória, exigindo sessões de plasmaférese, tratamento que filtra o sangue para conter o avanço da condição.
Com o passar dos anos, as crises retornaram repetidamente. Diferentemente dos casos clássicos de Guillain-Barré, onde há recuperação após a fase aguda, Roberta experimentou novas recaídas e desenvolveu fraqueza persistente. Os diagnósticos mais recentes apontam para a evolução para Polineuropatia Inflamatória Desmielinizante Crônica (CIDP), uma forma crônica da doença. Atualmente, ela convive com fraqueza nos quatro membros, realiza tratamento contínuo com medicações específicas e necessita de reabilitação intensiva constante.
Segundo a fisioterapeuta Júlia Chaves, especialista em traumato-ortopedia e desporto, a CIDP é um distúrbio neurológico autoimune em que o sistema imunológico ataca as próprias células nervosas, causando perda de força muscular. "A perda da bainha de mielina faz com que os impulsos nervosos fiquem lentos ou sejam interrompidos, o que causa fraqueza muscular, dificuldade de locomoção e até problemas no controle da bexiga", explica a especialista. Roberta enfatiza que, apesar da cronicidade, há possibilidade de recuperação após as crises com tratamento adequado e fisioterapia intensiva.
Força física e mental como pilares da recuperação
Ao longo de sua vida, Roberta já experimentou a paralisia completa em cinco episódios distintos. Em janeiro de 2025, após contrair Covid-19, enfrentou uma nova crise grave, sendo novamente internada na UTI, intubada e perdendo todos os movimentos, configurando mais um episódio de tetraplegia. Ela passou pelo Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer) em Goiânia e depois seguiu tratamento no Hospital Sarah, em Brasília, onde mantém acompanhamento regular.
Roberta acredita que seu condicionamento físico sempre foi decisivo nas recuperações. Antes dos 15 anos, praticava capoeira e manteve uma rotina intensa de treinos entre as crises. "Eu sempre treinei muito para quando viesse a crise eu ter o que gastar", afirma. Ela atribui a recuperação total dos movimentos após cada crise à sua preparação física e ao conhecimento técnico adquirido como fisioterapeuta, demonstrando como a expertise profissional se alia à experiência pessoal.
Tratamento inovador e processo de reabilitação
Atualmente, Roberta faz uso de um medicamento que atua diretamente no sistema imunológico para reduzir os ataques contra o próprio organismo. Este remédio passou a ser utilizado de forma preventiva, com aplicação a cada seis meses. "Os médicos acreditam que agora, tomando de forma preventiva, eu não vou ter mais crises", compartilha a fisioterapeuta com esperança.
Desde a última crise em janeiro de 2025, Roberta permanece em um processo intenso de reabilitação. Ela continua o tratamento no Hospital Sarah, em Brasília, realiza fisioterapia regularmente e trabalha incansavelmente para retomar a força muscular e a autonomia. Embora não consiga correr como antes e ainda dependa de apoio em algumas atividades físicas, celebra cada avanço conquistado. "Eu já estive pior. Já estive completamente paralisada. Então cada movimento que volta é uma vitória", declara com emoção.
Mesmo diante das limitações impostas pela doença, Roberta mantém uma rotina ativa de estudos, produção de conteúdo nas redes sociais e desenvolvimento de projetos voltados ao cuidado e à saúde da mulher. A fisioterapeuta aprendeu a viver em ciclos e com intensidade, transformando sua jornada pessoal em uma fonte de inspiração e resiliência para todos que a cercam.



