Temporada de doenças respiratórias chega antes do previsto e desafia calendário no Brasil
Os patógenos respiratórios estão no ar e já não respeitam o calendário tradicional de cuidados preventivos. Viroses como Influenza, Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e Covid-19 se adiantaram significativamente, disparando casos de hospitalização por todo o território nacional e obrigando as autoridades de saúde a tomarem medidas emergenciais, incluindo a antecipação da vacinação em diversos pontos do país.
Circulação precoce e intensa exige resposta urgente
Iniciada de forma adiantada no Hemisfério Norte com a disseminação da chamada "gripe K", o fenômeno se repetiu na região ao sul do Equador, mas veio acompanhado de um verdadeiro pelotão de outros microrganismos conhecidos por seus estragos. O Vírus Sincicial Respiratório (VSR), que causa bronquiolite em bebês e pneumonia em idosos, e o já endêmico coronavírus Sars-CoV-2 se somaram ao Influenza nesta temporada viral que desafia a sazonalidade tradicional.
No Brasil, o aumento das internações foi sinalizado pela Fiocruz ainda na primeira quinzena de março, antes mesmo do início da campanha nacional de imunização destinada à população mais vulnerável. O pico de infecções, que normalmente era previsto para abril, chegou mais cedo neste ano, colocando em alerta os sistemas de saúde em diversas regiões.
Fatores que contribuíram para a antecipação viral
A percepção de que a circulação dos vírus ocorreu de forma precoce vem do monitoramento dos casos em países como Estados Unidos, Reino Unido e Japão, onde a sazonalidade do Influenza é mais delimitada. O advento da gripe K no segundo semestre do ano passado levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a fazer um ajuste classificado como crítico nas cepas que fazem parte do imunizante contra o vírus causador da doença, que chega a matar até 650 mil pessoas no mundo por ano.
Com o alto fluxo de viajantes, fruto da globalização, as mudanças climáticas e a queda nas coberturas vacinais, os patógenos respiratórios encontram um terreno fértil para se proliferar e alcançar crianças, idosos, gestantes e indivíduos com doenças crônicas - justamente as pessoas que mais precisam de proteção.
"Com a baixa das temperaturas, temos uma conspiração viral nesta época do ano", afirma a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. A questão é que nem os surtos seguem mais um cronograma fixo. "O VSR ocorre no ano inteiro, embora seja mais marcante de março a julho. Já o vírus da covid nunca respeitou sazonalidade e a circulação do Influenza é menos concentrada num país de clima tropical", diz a pediatra Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
VSR se torna principal preocupação
Atualmente, o VSR, temido causador de bronquiolite e pneumonia, é o principal responsável por um quadro denominado síndrome respiratória aguda grave (SRAG), totalizando 14,6% das 9.443 infecções virais comprovadas em laboratório e 5,8% das mortes em crianças acometidas. A maior preocupação é com os prematuros: apenas no período de 2018 a 2024, foram 83.740 hospitalizações relacionadas ao vírus.
O cerco ao vírus está se fechando com a incorporação pela rede pública da vacina que protege gestantes na 28ª semana de gravidez e oferece defesa para os primeiros meses de vida da criança, assim como a inclusão do anticorpo monoclonal direcionado a bebês que nascem antes do esperado. Outra boa notícia foi a aprovação de um novo medicamento injetável para tratar recém-nascidos diagnosticados com a ameaça.
"O Brasil deu um passo enorme e estamos vivenciando um momento histórico", avalia Richtmann sobre os avanços no combate ao VSR.
Campanha de vacinação em andamento
O mutirão de vacinação contra a gripe teve início em diversas áreas do país, com ajustes no calendário especialmente na Região Norte, em razão do chamado "inverno amazônico". Apenas no primeiro dia da campanha, 1,6 milhão de doses foram aplicadas na população de risco, demonstrando a urgência da situação.
Outro inimigo que continua representando grave ameaça é a covid-19, que segue matando principalmente idosos, mesmo havendo vacina disponível e sobrando nos postos de saúde. "É uma doença que não pode ser negligenciada, e quem se vacina deixa de ser transmissor", reforça a pediatra Mônica Levi. Essa é uma mensagem crítica para cortar o combustível dos vírus em sua eterna corrida biológica.
A temporada viral chegou mais rápida este ano, mas a luta não está perdida. Há um arsenal de medidas disponíveis para combatê-la, sendo a vacinação a principal arma na proteção dos grupos mais vulneráveis e no controle da disseminação desses patógenos que desafiam cada vez mais os calendários tradicionais de saúde pública.



