Diabetes cresce 135% no Brasil e aumenta risco de cegueira, alerta oftalmologista
Diabetes cresce 135% no Brasil e eleva risco de cegueira

Diabetes atinge níveis alarmantes no Brasil com aumento de 135% em 18 anos

Dados recentes do Ministério da Saúde revelam uma situação preocupante: o diabetes teve uma alta expressiva de 135% entre os anos de 2006 e 2024 no território brasileiro. No período analisado, a prevalência da doença saltou de 5,5% para impressionantes 12,9% da população, conforme informações extraídas do relatório 'Vigitel 2025'.

Os números mostram ainda uma disparidade significativa entre gêneros: no último ano, 14,3% das mulheres relataram diagnóstico de diabetes, enquanto entre a população masculina esse índice ficou em 11,2%. Essa diferença chama atenção dos especialistas e demanda investigação mais aprofundada.

Mulheres são mais afetadas pelo diabetes no país

De acordo com o renomado oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Penido Burnier de Campinas e membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, as mulheres enfrentam maior risco de desenvolver diabetes devido a múltiplos fatores combinados. "A mulher tem mais diabetes porque muitas enfrentam jornada dupla de trabalho que, somada ao sedentarismo, falta de sono adequado e sobrepeso, forma um verdadeiro coquetel Molotov no organismo", explica o especialista.

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Queiroz Neto destaca que essa combinação de fatores de risco cria condições ideais para o desenvolvimento da doença, que muitas vezes passa despercebida nos estágios iniciais, mas pode causar danos irreversíveis à saúde quando não diagnosticada e tratada adequadamente.

Visão flutuante pode ser primeiro sinal da doença

O oftalmologista alerta para um sintoma inicial importante: a visão flutuante e borrada frequentemente representa o primeiro sinal do diabetes. Esse fenômeno visual é causado pela diminuição da produção de lágrimas e pela oxidação do cristalino ocular, processos diretamente relacionados aos desequilíbrios metabólicos característicos da doença.

"Por isso, muitas pessoas descobrem a doença durante uma consulta oftalmológica de rotina, que deve ser realizada anualmente, independentemente da presença de sintomas aparentes", ressalta Queiroz Neto. Essa recomendação é crucial porque a maioria das doenças oculares são assintomáticas em suas fases iniciais, e a visão perdida pode se tornar irrecuperável, especialmente quando ocorrem danos ao nervo óptico e à retina.

Risco de perda de visão aumenta 25 vezes com diabetes

O especialista explica com detalhes técnicos como o diabetes eleva dramaticamente o risco de problemas visuais: "O diabetes é uma doença progressiva e aumenta em até 25 vezes o risco de perda da visão". Esse aumento significativo ocorre porque, nos pacientes diabéticos, quando a glicose entra no cristalino do olho, parte é transformada em sorbitol.

Esse processo faz com que o cristalino absorva mais água, e a repetição constante desse mecanismo leva à oxidação da lente ocular. Como consequência direta, a catarata em diabéticos tende a aparecer mais cedo, e independentemente da idade do paciente, a cirurgia deve ser realizada para manter a retina visível durante os exames de acompanhamento.

Diabetes provoca inflamação generalizada no organismo

Queiroz Neto detalha os efeitos sistêmicos da doença: "O diabetes provoca uma inflamação generalizada no organismo, causa desidratação, altera o sistema imunológico e prejudica a circulação sanguínea". Com o passar do tempo, essas alterações podem reduzir tanto a quantidade quanto a qualidade das lágrimas, provocando desconforto visual significativo, especialmente durante o uso prolongado de telas digitais.

"Toda a circulação, inclusive dos delicados vasos sanguíneos do fundo do olho, sofre alterações importantes", complementa o oftalmologista. Por essa razão, toda pessoa diagnosticada com diabetes deve realizar exames oftalmológicos periódicos para monitorar possíveis complicações.

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Sinais de alerta que exigem atenção imediata

O especialista faz um alerta importante sobre sintomas que não podem ser ignorados: "Caso a pessoa enxergue manchas escuras ou muitas moscas volantes, deve consultar um oftalmologista imediatamente". Essas alterações visuais podem estar associadas a condições graves como descolamento de retina, degeneração macular ou retinopatia diabética, todas consideradas emergências oftalmológicas.

Queiroz Neto enfatiza que essas complicações exigem intervenção rápida para evitar danos permanentes à visão, já que o sistema visual responde por impressionantes 85% de nossa integração com o meio ambiente e determina significativamente nossa independência conforme envelhecemos.

Metade dos diabéticos só descobre a doença tardiamente

Uma pesquisa internacional desenvolvida em 41 países, incluindo o Brasil, pelo IDF (International Diabetes Federation), IAPB (agência de controle da cegueira ligada à OMS) e IFA (International Federation on Ageing), trouxe dados preocupantes: metade dos diabéticos só recebe diagnóstico anos depois de conviver com a doença.

O estudo revela ainda que quanto mais tardio for o diagnóstico, maior será a chance de perda irreversível da visão. Situação ainda mais alarmante: quase um terço dos pacientes (31%) nunca recebeu informação adequada sobre retinopatia e edema macular, condições decorrentes do diabetes que representam importantes causas de perda definitiva da visão entre pessoas de 20 a 60 anos.

Diabetes dobra risco de catarata e outras complicações

Além das alterações na retina, o diabetes dobra o risco de desenvolver catarata, conforme demonstrado por um estudo realizado no Reino Unido com mais de 50 mil participantes. Queiroz Neto explica o mecanismo: "Isso acontece porque os depósitos de glicemia nas paredes do olho, somados às constantes oscilações dos níveis glicêmicos, aumentam a formação de radicais livres e aceleram o processo de envelhecimento do cristalino".

O adiamento da cirurgia de catarata é contraindicado em pacientes diabéticos porque torna o procedimento mais perigoso ao impedir o acompanhamento adequado das alterações retinianas causadas pelo diabetes. Entre essas condições estão:

  • Descolamento da retina
  • Retinopatia diabética
  • Formação de neovasos
  • Degeneração macular

Todas essas situações são consideradas emergenciais e devem ser verificadas por um oftalmologista o mais rápido possível.

Complicações sistêmicas da hiperglicemia

A hiperglicemia crônica, característica do diabetes não controlado, também pode causar diversas complicações em outros sistemas do organismo:

  1. Problemas cardiovasculares graves
  2. Insuficiência renal progressiva
  3. Risco aumentado de amputações
  4. Danos nos nervos periféricos decorrentes da má circulação

Por essa razão, o diabetes requer acompanhamento integrado por uma equipe multidisciplinar de especialistas, incluindo endocrinologistas, cardiologistas, nefrologistas e oftalmologistas, entre outros profissionais de saúde.

Diferenças entre diabetes tipo 1 e tipo 2

Queiroz Neto esclarece as distinções entre os principais tipos de diabetes: "Aproximadamente 10% dos casos são do tipo 1, causados por uma alteração no sistema imunológico que dificulta a produção de insulina pelo pâncreas". A falta desse hormônio, responsável por transformar a glicose dos alimentos em energia, cria depósitos de glicemia no sangue, exigindo tratamento com reposição de insulina.

"Nos outros 90%, o diabetes é do tipo 2 e resulta da resistência das células à insulina, desencadeada principalmente pelo estilo de vida inadequado", explica o especialista. Nesses casos, apenas em situações extremas é indicado o uso de insulina, sendo o controle através de medicamentos orais, dieta e exercícios a abordagem inicial preferencial.

Tratamentos disponíveis para complicações oculares

O controle adequado do diabetes, assim como da hipertensão arterial e do colesterol elevado, requer medicamentos que devem ser utilizados exclusivamente sob supervisão médica especializada. Para as complicações oculares específicas, existem diversas opções terapêuticas:

  • Catarata: Cirurgia que substitui o cristalino opaco pelo implante de uma lente intraocular capaz de restaurar a visão para todas as distâncias
  • Olho seco: Aplicação de luz pulsada e uso de colírios específicos
  • Casos avançados de retinopatia e degeneração macular seca: Injeções intraoculares anti-VEGF
  • Edema macular: Fotocoagulação a laser para vasos anormais
  • Sangramentos graves ou descolamento de retina: Vitrectomia

Prevenção como melhor estratégia contra o diabetes

O oftalmologista Leôncio Queiroz Neto oferece recomendações práticas para prevenir o diabetes e suas complicações:

  1. Realize um hemograma completo anualmente, especialmente após os 40 anos
  2. Pratique no mínimo 150 minutos por semana de atividades físicas moderadas
  3. Reduza significativamente o consumo de alimentos ultraprocessados, refrigerantes, frituras, doces e alimentos excessivamente calóricos
  4. Inclua na dieta diária grãos integrais, legumes, verduras e frutas frescas
  5. Desligue todas as telas eletrônicas pelo menos 1 hora antes de dormir
  6. Mantenha uma rotina de sono de 6 a 8 horas por noite

"As alterações nos olhos passam despercebidas no início porque nosso cérebro se adapta às deficiências visuais progressivas. Para ter melhor qualidade de vida ao longo dos anos, coloque sua saúde na agenda como prioridade absoluta", finaliza o especialista, reforçando a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.