Câncer se transforma em doença crônica com novas terapias que aumentam sobrevida e qualidade de vida
Câncer vira doença crônica com novas terapias que ampliam sobrevida

Por que o câncer se transformou em doença crônica: novas terapias revolucionam o tratamento

Para qualquer pessoa, receber o diagnóstico de um câncer metastático é uma notícia impactante e aterrorizante. Afinal, num passado recente, essa condição era considerada praticamente uma sentença de morte, com poucos pacientes sobrevivendo mais do que cinco anos após a descoberta da doença. No entanto, nas últimas duas décadas, essa realidade mudou drasticamente graças aos avanços significativos nos tratamentos oncológicos.

O progresso médico contribuiu de forma decisiva para aumentar tanto o tempo quanto a qualidade de vida de muitos pacientes que vivem com metástase. O arsenal terapêutico ganhou estratégias inovadoras e diferenciadas para abordar a doença de maneira mais eficaz e personalizada.

O salto do tratamento sistêmico e as novas classes de medicamentos

A começar pelo tratamento sistêmico, que deu um enorme salto qualitativo com a incorporação de medicamentos sofisticados e altamente especializados. Entre essas novidades estão os anticorpos monoclonais, as drogas-alvo direcionadas, os anticorpos associados à quimioterapia e, mais recentemente, a revolucionária imunoterapia.

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Mesmo quando se torna difícil ressecar completamente o tumor e as metástases, essas novas classes de medicamentos oferecem a possibilidade real de controlar a enfermidade de maneira eficaz por um longo período. Em muitos casos, elas viabilizam até mesmo a cura, algo que era considerado praticamente impossível há poucos anos.

O câncer de pulmão metastático serve como um exemplo emblemático dessa transformação. A doença sempre foi considerada particularmente difícil de tratar, mas, se o paciente apresentar alterações moleculares específicas, como a mutação no gene EGFR, basta tomar uma simples pílula periodicamente para manter a neoplasia sob controle por muitos anos.

Avances nos tratamentos locais e perspectivas de cura

Os tratamentos locais também receberam um impulso adicional extraordinário. A situação mais simbólica é a do câncer de cólon com metástase no fígado. Há apenas três décadas, essa neoplasia era considerada absolutamente incurável, e os pacientes tinham uma sobrevida muito curta — no máximo, um ano.

Hoje, se a doença estiver sob controle adequado com o tratamento sistêmico, é possível remover cirurgicamente tanto o tumor primário quanto as metástases, abrindo uma perspectiva realista de cura para muitos pacientes. Estamos avançando a tal ponto que, em alguns países desenvolvidos, o transplante de fígado já é oferecido para pessoas com a doença controlada por quimioterapia que não têm a possibilidade de ressecção cirúrgica.

Essa oferta inovadora já ocorre regularmente na França, na Noruega e nos Estados Unidos, representando um marco histórico no tratamento oncológico.

Estatísticas que comprovam a transformação

O Instituto Nacional do Câncer de Rockville, nos Estados Unidos, estima que o contingente de pessoas vivendo com doença metastática vem crescendo consistentemente. Em 2018, havia 623.405 norte-americanos com câncer avançado de mama, próstata, pulmão, colorretal, bexiga e pele (melanoma). Esses são os seis tumores mais comuns naquele país.

Em 2025, esse número saltou expressivamente para 693.452 indivíduos, demonstrando tanto o aumento dos diagnósticos quanto a maior sobrevida dos pacientes. Os pesquisadores do instituto calcularam que quase 30% das pessoas diagnosticadas com melanoma metastático e um quinto daquelas com diagnóstico de câncer colorretal e de mama metastáticos viveram dez anos ou mais com essa condição.

Outro dado extremamente interessante é a queda consistente da mortalidade por câncer, que, nos últimos 30 anos, está na faixa de 2% a 3% ao ano. É certo que esse declínio está associado ao diagnóstico precoce, que melhora significativamente o prognóstico. Mas também está diretamente ligado ao aumento da sobrevida por meio do tratamento sistêmico moderno e à possibilidade real de cura dos pacientes com metástase — algo considerado muito raro até pouco tempo atrás.

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O fato concreto é que a promessa de cronificação do câncer metastático é hoje uma realidade médica estabelecida e que, num futuro próximo, teremos cada vez mais casos de cura completa da doença. A oncologia vive um momento histórico de transformação radical na abordagem terapêutica.

Paulo Hoff é médico oncologista, presidente da Oncologia D’Or, professor titular da Disciplina de Oncologia Clínica do Departamento de Radiologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e membro pregresso do Conselho Diretor da ASCO.