Câncer colorretal avança entre jovens: mortes devem crescer 36% no Brasil até 2040
O câncer colorretal, tradicionalmente associado a adultos mais velhos, está apresentando um crescimento alarmante entre pessoas com menos de 50 anos. Nos Estados Unidos, essa neoplasia já se tornou a principal causa de morte por câncer nessa faixa etária, enquanto no Brasil as projeções indicam um aumento de 36% nas mortes relacionadas à doença até 2040.
Mudança no perfil epidemiológico
Especialistas observam com preocupação a mudança no perfil dos pacientes. "Agora estamos começando a ver cada vez mais pessoas de 20, 30 e 40 anos desenvolvendo câncer de cólon. No início da minha carreira, ninguém dessa idade tinha câncer colorretal", afirma John Marshall, oncologista do Centro Oncológico Lombardi da Universidade de Georgetown, com mais de três décadas de experiência.
Um estudo publicado na revista científica The Lancet Oncology em 2025 analisou dados de 50 países e identificou incidência de câncer colorretal de início precoce em 27 deles. Em 20 países, o avanço ocorreu exclusivamente entre os mais jovens ou cresceu mais rápido nesse grupo do que entre adultos mais velhos.
Cenário brasileiro preocupante
No Brasil, o câncer colorretal é o terceiro tipo mais comum de câncer, com 45.630 novos casos estimados anualmente. A mortalidade relacionada ao tumor de cólon e reto aumentou quase 50% nas últimas duas décadas, conforme levantamento do Estadão.
Estudo da Fundação do Câncer revelou que mais de 60% dos casos no país são diagnosticados tardiamente. Entre as vítimas brasileiras está a cantora Preta Gil, que faleceu em 2025 aos 50 anos.
Importância do diagnóstico precoce
Quando detectado precocemente, as taxas de sobrevivência em cinco anos podem variar entre 80% e 90%, permitindo a remoção de pólipos pré-cancerígenos. Contudo, quando descoberto em fases avançadas, após se espalhar para outras partes do corpo, a sobrevivência pode cair para cerca de 10% a 15%.
Nos Estados Unidos, mais de 158 mil casos de câncer colorretal serão diagnosticados este ano, segundo a Sociedade Americana do Cânser. A entidade estima que 3.890 pessoas abaixo dos 50 anos morrerão em decorrência da doença em 2025.
Fatores de risco e prevenção
Os principais fatores de risco incluem:
- Obesidade
- Falta de atividade física
- Dieta rica em carne vermelha ou processada
- Consumo pobre em frutas e verduras
- Tabagismo
- Consumo excessivo de álcool
- Doença inflamatória intestinal
- Histórico familiar de câncer colorretal
Pesquisas recentes relacionam o aumento de casos precoces ao maior consumo de ultraprocessados e ao sedentarismo, embora essas associações ainda não provem uma causa direta. "A carne [vermelha] não é ruim, mas devemos comer menos", recomenda Marshall, que também sugere o consumo de frutas, verduras e grãos integrais.
Sintomas e rastreamento
Os sintomas do câncer colorretal incluem:
- Sangue nas fezes ou sangramento retal
- Mudanças nos hábitos intestinais (diarreia, constipação ou fezes afinadas)
- Perda de peso involuntária
- Cólicas ou dor abdominal
- Anemia sem causa aparente
"Não ignore os sintomas. Procure avaliação", enfatiza Marshall. As diretrizes médicas recomendam que adultos com risco médio iniciem exames preventivos aos 45 anos, enquanto pessoas com risco aumentado devem conversar com médicos sobre começar essa avaliação ainda mais cedo.
Casos emblemáticos
A morte do ator James Van Der Beek aos 48 anos e, em 2020, do astro de Pantera Negra Chadwick Boseman aos 43, destacaram o risco para adultos relativamente jovens. A doença vem sendo diagnosticada até mesmo em pessoas na casa dos 20 anos – algo que, até pouco tempo atrás, era considerado excepcional.
Pesquisas em andamento
A ciência ainda busca explicações para o aumento de casos em adultos jovens. Marshall destaca que muitos pacientes jovens não apresentam os fatores de risco tradicionais. Pesquisadores investigam o possível impacto do desequilíbrio da microbiota intestinal (disbiose), que pode gerar inflamação e efeitos negativos à saúde, incluindo maior risco de câncer.
Estudos mostram que adultos jovens tendem a desenvolver tumores no lado esquerdo do cólon e no reto, que levam a sintomas mais evidentes, como sangramento e alteração de hábitos intestinais.



