Inovação tecnológica para combater a hanseníase em Pernambuco
Pesquisadores da Universidade de Pernambuco (UPE) desenvolveram um aplicativo revolucionário para auxiliar nos exames de pacientes com hanseníase. A ferramenta, denominada Avaliação Neurológica Simplificada Digital (ANSd), tem como objetivo substituir completamente o registro tradicional feito com papel e caneta nos hospitais públicos.
Do analógico ao digital: uma transformação necessária
As pesquisas tiveram início em 2024, motivadas pela necessidade urgente de modernizar e agilizar os processos dentro das unidades de saúde. Em abril, o Hospital Otávio de Freitas, localizado no bairro de Tejipió, na Zona Oeste do Recife, começará a testar a usabilidade desta nova ferramenta digital. Esta unidade de saúde é referência estadual no tratamento da doença e será a pioneira na implementação do aplicativo.
Patricia Endo, doutora em Ciência da Computação e coordenadora do projeto, revelou que a ideia surgiu após uma visita à unidade de saúde em 2023. "A realidade do hospital era de todos os dados dos pacientes estarem em papel, guardados em caixas. É um cenário completamente analógico. A gente entende a importância que é ter esses dados armazenados e coletados de forma digital", explicou a pesquisadora.
Como funciona a avaliação neurológica
Os pacientes com hanseníase necessitam passar por uma avaliação de sensibilidade neurológica, realizada por especialistas em hansenologia. Durante o exame, são aplicados estímulos na pele para testar se os pacientes sentem tato, dor ou temperatura, e as reações são tradicionalmente anotadas em papel com auxílio de canetas coloridas.
"Cada tipo de sensibilidade tem uma cor diferente que o especialista precisa pintar no papel. A quantidade de erros que podemos ter é significativa, e com o tempo essas cores vão se deteriorando. Quando temos isso no formato digital, conseguimos garantir também a qualidade desses dados", detalhou Patricia Endo.
Vantagens do sistema digital
O aplicativo conta com a mesma ficha de avaliação regulamentada pelo Ministério da Saúde, facilitando a adaptação dos profissionais de saúde já familiarizados com o modelo em papel. "Eles vão conseguir fazer isso de uma forma mais eficaz, com maior qualidade e num tempo menor", afirmou a pesquisadora.
Danielle Moura, professora e doutora da UPE especialista em hanseníase, integra a equipe de pesquisadores e destaca que a nova ferramenta vem solucionar um problema histórico do Sistema Único de Saúde (SUS). "O aplicativo vem responder a uma demanda histórica e crítica, que é a necessidade de sistematizar, qualificar e tornar acessível a avaliação neurológica de pacientes com hanseníase em todos os pontos da rede de atenção do SUS", declarou.
Contexto da hanseníase no Brasil
A hanseníase é uma doença infectocontagiosa crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que afeta principalmente a pele e os nervos periféricos, podendo causar incapacidades físicas permanentes. Quando diagnosticada e tratada precocemente, os efeitos permanentes podem ser evitados.
Segundo o Boletim Epidemiológico da Hanseníase publicado pelo Ministério da Saúde em 2026, foram notificados 22.129 casos novos da doença em 2024 no Brasil. Desses, 36,5% dos pacientes já apresentavam grau 1 de incapacidade física no momento do diagnóstico.
Em Pernambuco, ao longo dos últimos 10 anos, foram registrados 19.831 casos novos de hanseníase. Em 2024, especificamente, foram notificados 1.699 casos novos no estado. Entre os 1.420 casos avaliados naquele ano, 12,5% apresentavam grau 2 de incapacidade física no momento do diagnóstico, um parâmetro considerado "alto" que indica diagnóstico tardio.
Expansão do projeto hansen.ai
Além da UPE, o projeto hansen.ai conta com parcerias do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) e da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), envolvendo 23 pesquisadores entre professores e alunos. O projeto tem previsão de conclusão no final de 2026 e busca novos financiamentos para desenvolver outras ferramentas e dispositivos.
Hilson Vilar, professor e pesquisador do IFPE, está desenvolvendo um modelo de predição com inteligência artificial. "Vamos poder usar as informações coletadas pelo aplicativo para criar um modelo de IA que preveja a evolução do paciente. Se conseguirmos identificar, no primeiro atendimento, quem tem mais risco de piorar, o SUS poderá fazer um atendimento diferenciado para evitar sequelas", explicou.
Desafios e perspectivas futuras
A implementação da ferramenta digital no Hospital Otávio de Freitas enfrenta desafios burocráticos, como a necessidade de adquirir tablets e impressoras para a unidade de saúde. "Nos principais desafios, acho que sempre vai ter essa questão burocrática. Já queríamos estar no hospital fazendo testes de usabilidade. Outro desafio muito grande é pensar na escalabilidade, de como sair de um hospital aqui no estado para escalar para todo o Brasil", afirmou Patricia Endo.
Além do aplicativo para profissionais de saúde, o projeto prevê uma plataforma para pacientes, onde poderão acompanhar seu estado de saúde e receber orientações médicas e de autocuidado. Também está em desenvolvimento um aparelho para auxiliar na avaliação sensitiva, demonstrando que o ANSd é apenas o ponto de partida para uma série de inovações no atendimento à hanseníase.



