Trabalho escravo contemporâneo cresce 44% no Paraná em 2025, revela Ministério do Trabalho
Um relatório recente do Ministério do Trabalho e Emprego revelou uma mudança significativa no perfil do trabalho análogo à escravidão no Brasil, com destaque para um aumento alarmante no estado do Paraná. Os dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) mostram que o número de trabalhadores resgatados em condições degradantes no Paraná saltou de 43 em 2024 para 62 em 2025, representando um crescimento de 44,18% em apenas um ano.
Mudança no perfil: escravidão urbana em ascensão
Diferentemente da percepção comum que associa o trabalho escravo principalmente a áreas rurais e fazendas isoladas, os números nacionais de 2025 indicam uma realidade preocupante: 68% de todos os trabalhadores identificados em situação análoga à escravidão no Brasil foram resgatados em áreas urbanas. Essa estatística revela uma transformação profunda no cenário da exploração laboral no país.
O procurador do trabalho Lincoln Nóbrega alerta sobre essa mudança: "O Brasil precisa esquecer esse mito de que o trabalho análogo ao escravo só acontece em fazendas distantes, isoladas. A escravidão contemporânea está muito mais próxima do que a gente imagina. Um cenário que a gente tem visualizado muito claramente no Paraná é um aumento significativo de trabalhadores domésticos escravizados".
Casos emblemáticos no Paraná
Os dados do Paraná revelam situações particularmente graves:
- Usina em São Pedro do Ivaí: 57 trabalhadores foram resgatados, sendo 46 indígenas da etnia Guarani Kaiowá que haviam migrado do Mato Grosso do Sul. As vítimas estavam sem alimentação adequada, transporte, itens básicos de higiene e não recebiam salários.
- Propriedade em Manoel Ribas: Um casal de trabalhadores rurais foi encontrado com saúde debilitada após sofrer acidentes de trabalho, mantido em condições consideradas degradantes pelos agentes fiscais.
- Tapeçaria em Foz do Iguaçu: Um homem foi resgatado após cerca de dois anos de cárcere privado, obrigado a trabalhar e dormir no mesmo local onde eram realizados os serviços, com exposição a produtos químicos e condições insalubres.
Dercylete Lisboa Loureiro, coordenadora-geral de fiscalização do trabalho, explica que a escravidão contemporânea não se manifesta apenas pelo cerceamento físico: "Nós não vamos encontrar como regra pessoas trabalhando acorrentadas. O fato é que nós temos a situação de trabalho forçado, trabalhar sob ameaça, mas também a jornada exaustiva, de intensidade... Também as condições dentro dessa jornada, de segurança e de saúde".
Panorama nacional e perfil das vítimas
Em nível nacional, foram realizadas 1.594 ações de fiscalização em 2025, resultando no resgate de 2.772 trabalhadores. Os dados do Seguro-Desemprego do Trabalhador Resgatado (SDTR) revelam um perfil social marcado por vulnerabilidades:
- 86% dos resgatados eram homens
- 83% se autodeclararam pretos ou pardos
- 65% residiam na região Nordeste
- 41% eram naturais do Nordeste
- 24% possuíam ensino médio completo, enquanto 8% eram analfabetos
Esses números evidenciam a forte relação entre o trabalho análogo ao escravo e vulnerabilidades sociais estruturais, conforme destacado pela Secretaria de Inspeção do Trabalho.
Consequências e medidas
Em 2025, mais de R$ 9 milhões foram pagos em indenizações para trabalhadores resgatados em situação análoga à escravidão. Além da compensação financeira, Lincoln Nóbrega destaca a importância do acompanhamento pós-resgate: "A importância do acompanhamento às vítimas resgatadas, para garantir a elas a inserção no mercado de trabalho formal e seguro".
Para denúncias, está disponível o Sistema Ipê, canal específico da Organização Internacional do Trabalho que permite reportar casos de trabalho análogo à escravidão sem necessidade de identificação do denunciante.
Os casos no Paraná ocorreram em diversas localidades, incluindo Curitiba (trabalho doméstico) e Medianeira (construção civil), demonstrando que a exploração laboral assume múltiplas formas e está presente em diferentes contextos urbanos e rurais do estado.