Caso de etarismo em Goiânia sinaliza nova postura da sociedade e da Justiça brasileira
Caso de etarismo em Goiânia marca nova era no combate à discriminação

Caso de etarismo em Goiânia ilumina nova postura da sociedade e da Justiça brasileira

A assistente financeira Clebya Aparecida Ribeiro de Oliveira, de 43 anos, venceu uma ação judicial por etarismo em Goiânia, marcando um momento significativo no combate à discriminação por idade no Brasil. Entre abril e outubro de 2024, ela enfrentou humilhações constantes no ambiente de trabalho, sendo chamada de "véia" por colegas e até pela gerente do departamento.

O início do calvário e a busca por Justiça

Os problemas começaram no primeiro dia de trabalho, quando uma colega de 22 anos descobriu que Clebya tinha 41 anos e reagiu com a frase: "Você é velha!". A partir desse momento, a assistente financeira passou a ser alvo de piadas e comentários pejorativos, que ultrapassaram os limites do respeito e a levaram a recorrer à Justiça.

Clebya relatou em entrevista: "Eu não sabia que existia etarismo, mas tinha certeza de que não era certo o que estava acontecendo comigo. Por isso procurei a Justiça". Ela preferiu não mostrar o rosto, alegando trauma com ataques de haters nas redes sociais.

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Decisão judicial e seu significado simbólico

A 1ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região determinou o pagamento de uma indenização de 1.500 reais à assistente financeira. Embora o valor seja considerado irrisório diante do sofrimento vivido – incluindo crises de choro e insônia – a vitória possui um peso simbólico imenso.

Luiz Carlos Souza, advogado de Clebya, destacou: "A ação transmite a mensagem de que se trata, sim, de um crime e que empresas não podem permitir esse tipo de conduta".

Crescimento exponencial de ações contra o etarismo

O caso de Goiânia reflete uma tendência nacional. Atualmente, cerca de 1.400 processos relacionados ao etarismo tramitam no Tribunal Superior do Trabalho, sem contar os milhares em instâncias regionais. Somente na Grande São Paulo, existem 2.090 ações em andamento.

Pesquisa da FGV revela uma triste realidade: 86% das pessoas com mais de 60 anos que permanecem no mercado de trabalho relatam episódios de humilhação ou desrespeito. O que antes era tratado como normalidade incômoda agora começa a ser percebido como inaceitável.

Defasagem histórica e desafios no combate ao preconceito

O Brasil debate o tema com atraso significativo. Enquanto países como os Estados Unidos combatem a discriminação por idade desde 1967, desenvolvendo jurisprudência robusta e indenizações com efeito pedagógico, aqui as punições ainda são consideradas brandas.

Sérgio Pelcerman, especialista em causas trabalhistas, analisa: "No fundo, isso revela que os magistrados não percebem a questão como crime grave".

Mudança de mentalidade e conscientização coletiva

A nova atitude das vítimas reflete uma disposição crescente para confrontar o preconceito e dar nome aos bois. A atualização do Estatuto do Idoso pelo Congresso Nacional em 2023 ajudou a ampliar o combate ao etarismo e a conscientizar a sociedade.

Heloisa Papassoni, advogada e doutoranda em ciências do envelhecimento, afirma: "Ao reconhecer práticas antes banalizadas, a sociedade revela uma maior consciência coletiva".

Depoimento emocionante da vítima

Clebya descreveu os momentos mais difíceis: "Era excluída pelos colegas. Eles combinavam de sair para almoçar e não me chamavam. Tinha crises de choro, não comia e não dormia. Procurei um psiquiatra para lidar com essa situação. Tudo em mim parecia errado".

Ela relatou ainda que a gerente criticava sua aparência e mandava que passasse batom, reforçando um ambiente hostil e discriminatório. "Foi o pior período da minha vida. Fiquei muito abalada emocionalmente", completou.

Reflexões sobre a maturidade e o futuro

Num paralelo com a obra clássica de Simone de Beauvoir, que diagnosticou como a sociedade aceita a velhice como destino mas se recusa a reconhecê-la como fase da vida, o caso de Goiânia representa um passo importante na luta contra o etarismo.

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A vitória de Clebya, embora com indenização modesta, ilumina um caminho para milhares de brasileiros que sofrem discriminação por idade no ambiente de trabalho. A esperança é que casos como este ajudem a virar o jogo e a construir uma sociedade mais justa e respeitosa com todas as fases da vida.