Padre da PB firma acordo com MPF por intolerância religiosa contra família de Preta Gil
Padre faz acordo por intolerância religiosa contra família de Preta Gil

Padre da Paraíba fecha acordo por intolerância religiosa contra família de Preta Gil

O padre Danilo César, da paróquia de Areial, na Paraíba, firmou um acordo judicial para retratação pública com a família de Preta Gil, em um processo cível por danos morais movido na 41ª Vara da Comarca do Rio de Janeiro. O clérigo foi denunciado por intolerância religiosa por declarações feitas durante uma missa transmitida ao vivo no ano passado.

Termos do acordo cível homologado pela Justiça

O acordo, fechado em 11 de abril e que ainda aguarda homologação definitiva pela Justiça, estabelece que o padre deverá pedir desculpas publicamente à família de Preta Gil, citando nominalmente o pai dela, Gilberto Gil, e outros integrantes da família. A retratação será realizada durante uma celebração religiosa transmitida pelo canal de YouTube da Paróquia de Areial.

O objetivo desta modalidade de pedido de desculpas é garantir que as declarações tenham o mesmo alcance das falas originais que deram origem ao processo, uma vez que as ofensas foram proferidas no mesmo ambiente virtual. No acordo, o padre reconheceu explicitamente o teor ofensivo de suas declarações e admitiu que causaram dor aos familiares de Preta Gil.

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Condições e penalidades do acordo judicial

Com a formalização deste acordo, o padre evita o pagamento de R$ 370 mil em danos morais. No entanto, o termo estabelece condições rigorosas:

  • O pedido de desculpas deve ser realizado dentro de 30 dias úteis após a homologação do acordo pela Justiça
  • Caso não cumpra este prazo, está prevista multa de R$ 250 mil
  • Deve ser feita doação de oito cestas básicas para instituição indicada pela família Gil em até dez dias após homologação
  • A Diocese de Campina Grande, responsável pela paróquia, também é parte no acordo

Acordo anterior na esfera criminal com o MPF

Em fevereiro deste ano, na área criminal, o padre já havia fechado um acordo de não persecução penal com o Ministério Público Federal da Paraíba (MPF-PB), evitando responder criminalmente pelo caso. Entre as obrigações assumidas naquele acordo:

  1. Participação em ato inter-religioso realizado em fevereiro, com participação remota de Gilberto Gil
  2. Leitura e produção de resenhas manuscritas das obras A Justiça e a Mulher Negra (Lívia Santana) e Cultos Afro-Paraibanos (Valdir Lima)
  3. Produção de resenha manuscrita do documentário Obatalá, o Pai da Criação
  4. Cumprimento de 60 horas de cursos sobre intolerância religiosa, com certificados válidos
  5. Pagamento de R$ 4.863,00 para a Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes (AACADE)

Até o fim de junho, o padre deve entregar as três resenhas manuscritas e no mínimo 20 horas certificadas de cursos sobre o tema.

Contexto das declarações consideradas intolerantes

O caso ocorreu no dia 27 de julho do ano passado, durante homilia transmitida ao vivo pelo YouTube da paróquia de São José, em Areial. O padre citou a morte da cantora Preta Gil, vítima de câncer colorretal nos Estados Unidos, associando sua fé em religiões de matriz afro-indígenas ao sofrimento e morte.

"Eu peço saúde, mas não alcanço saúde, é porque Deus sabe o que faz, ele sabe o que é melhor para você, que a morte é melhor para você. Como é o nome do pai de Preta Gil? Gilberto Gil fez uma oração aos orixás, cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil? Já enterraram?", declarou o padre durante a transmissão.

As declarações com cunho de intolerância religiosa também se estenderam aos fiéis presentes. O clérigo se referiu a religiões de matriz afro-indígenas como "coisas ocultas" e afirmou que desejava "que o diabo levasse" quem procurasse essas práticas religiosas.

Repercussão e denúncia formal

O vídeo da missa foi retirado do ar após grande repercussão nas redes sociais. A Associação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema Mãe Anália Maria, da região de Areial, considerou as falas como preconceituosas. O presidente da instituição, Rafael Generiano, registrou boletim de ocorrência contra as declarações do padre por intolerância religiosa na época dos fatos.

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O caso representa um marco nos processos judiciais envolvendo intolerância religiosa no Brasil, demonstrando como acordos extrajudiciais podem ser utilizados para promover educação sobre diversidade religiosa e reparação moral às vítimas.