Guerra pública entre pastores evangélicos expõe rachaduras na bancada religiosa
O cenário político evangélico brasileiro vive um momento de tensão sem precedentes, com trocas públicas de farpas entre algumas de suas principais lideranças. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) acusou igrejas e pastores de envolvimento nas falcatruas investigadas pela CPMI do INSS, sem inicialmente nomear os investigados. A declaração gerou reação imediata do pastor Silas Malafaia, que a chamou de leviana linguaruda por lançar suspeitas vagas sobre todo o segmento religioso.
Respostas acaloradas e acusações mútuas
Em resposta, Damares divulgou nomes de igrejas e pastores na mira da comissão parlamentar, incluindo o pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha. Valadão não ficou quieto e gravou um vídeo onde maldiz a fofoca nessa língua do capeta e afirma ser inadmissível falar da igreja do outro. A troca de farpas extrapolou a rixa pessoal e se transformou em sintoma de divisões mais profundas no campo evangélico brasileiro.
Divergências se ampliam em múltiplas frentes
As desavenças não se limitam ao episódio da CPMI. Outros pontos de atrito incluem:
- A indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, para o STF pelo presidente Lula
- O apoio à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência
- Articulações para as eleições municipais deste ano
O senador Magno Malta (PL-ES) publicou artigo criticando a nomeação de Messias, argumentando que identidade religiosa não é salvo-conduto ético. Em contraste, o bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, publicou foto com Lula e Messias com a legenda Deus é contigo.
Disputa pela sucessão presidencial divide lideranças
A candidatura de Flávio Bolsonaro revela fissuras significativas. Enquanto Malafaia declarou considerar o filho do ex-presidente fraco eleitoralmente, Damares anunciou apoio a Flávio e prometeu trabalhar para levar evangélicos à campanha. A maioria das lideranças prefere o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) na chapa presidencial, com Michelle Bolsonaro como vice.
O deputado Marco Feliciano (PL-SP) aconselhou Flávio a sentar com o pastor Silas, a quem considera a voz política mais relevante da nação. Pastores com trânsito político admitem que, se Jair Bolsonaro insistir no filho, Tarcísio tentará a reeleição em São Paulo, criando um cenário de se não tem tu, vai tu mesmo.
Histórico de desavenças e perspectivas para 2026
André Ítalo Rocha, autor de A Bancada da Bíblia: Uma História de Conversões Políticas, lembra que o atrito entre Damares e Malafaia começou em 2018, após a eleição de Bolsonaro. O pastor apoiou Magno Malta para o Ministério da Família, mas a vaga ficou com Damares, ex-assessora de Malta, em movimento interpretado como traição.
Nas coxias evangélicas, há diferentes interpretações sobre as denúncias de Damares. Alguns veem como saneamento do campo, enquanto outros acusam os envolvidos de fomentar fogo amigo que divide a igreja e enfraquece a direita.
O bispo Robson Rodovalho, que dará assistência religiosa a Jair Bolsonaro, afirma que conversará com Flávio nos próximos dias e defende que a direita tem que entrar junta. No entanto, a realidade mostra um grupo menos unido do que em ciclos eleitorais anteriores, com atritos se tornando cada vez mais públicos e multidimensionais.