Ex-bolsonarista e cineasta debatem influência evangélica na política em SP
Debate em SP terá ex-bolsonarista e cineasta de documentário

Um debate marcado para a próxima terça-feira, 20 de janeiro de 2026, em São Paulo, promete acender a discussão sobre um dos temas mais sensíveis da política brasileira recente: a crescente influência de líderes evangélicos no cenário nacional. O evento reunirá figuras de trajetórias opostas: a cineasta Petra Costa, autora do documentário Apocalipse nos Trópicos, e o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), um ex-aliado fervoroso do bolsonarismo que hoje se declara arrependido.

Os protagonistas do debate

De um lado, estará Petra Costa, cineasta cujo trabalho Apocalipse nos Trópicos é uma investigação profunda sobre como a expansão evangélica moldou a política durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. O documentário, disponível na Netflix, já foi pré-classificado ao Oscar de Melhor Documentário, atestando seu impacto e relevância. Trechos da obra servirão como ponto de partida para as reflexões do encontro.

Do outro lado, estará Otoni de Paula, um nome que sintetiza a própria transformação discutida no filme. Pastor da Assembleia de Deus Missão e Vida, ele foi um líder religioso aliado de Bolsonaro, mas hoje se distanciou publicamente do movimento. Sua mudança de posição ficou evidente em um discurso na tribuna da Câmara dos Deputados em novembro de 2025, onde expressou remorso por seus atos passados.

O arrependimento público e a "libertação da igreja"

O ponto de virada do deputado foi registrado de forma dramática. Otoni de Paula declarou, no plenário, que se arrepende de ter gritado "mito" em apoio a Bolsonaro, um ato que ele considera inadequado para o local. "Me arrependo quando gritei mito num lugar onde só deveria cultuar o senhor. A culpa nunca foi de Bolsonaro. A culpa foi minha mesmo", afirmou na ocasião.

Em entrevistas, como uma concedida à revista VEJA, o parlamentar do MDB aprofundou seu pensamento. Ele disse apoiar um movimento de "libertação da igreja", com o objetivo de fazer com que as entidades religiosas retornem ao seu papel original, distanciando-se de engajamentos políticos partidários extremados. Para Otoni, é crucial demonstrar que "a direita é maior que o bolsonarismo, assim como o conservadorismo é maior que a direita".

Evento abre série "Conversas Difíceis"

O debate não é um evento isolado. Ele marca a abertura da série "Conversas Difíceis", uma iniciativa promovida pelo Instituto Humanitas360 e pelo CIVI-CO. A curadoria e mediação ficarão a cargo do antropólogo Juliano Spyer, garantindo um diálogo pautado pela análise social e antropológica.

A participação é gratuita e o evento será transmitido ao vivo pela plataforma YouTube, ampliando o acesso do público a essa discussão crucial. A escolha do tema reflete um momento de avaliação e questionamento sobre as relações entre religião, poder e sociedade no Brasil pós-2022.

O encontro entre Petra Costa e Otoni de Paula simboliza o cruzamento entre a análise crítica de um fenômeno social e o testemunho em primeira pessoa de quem esteve no centro dele. Mais do que um debate, é um sintoma do amadurecimento do diálogo público sobre os limites e a natureza da influência religiosa na esfera política brasileira.