Dados em São Paulo desmentem tese de que Bolsa Família desestimula trabalho
A ideia de que programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, levam os beneficiários a abandonarem suas ocupações ou a desistirem de buscar novas vagas no mercado de trabalho é uma narrativa bastante difundida na atualidade. No entanto, um levantamento recente realizado pelo Núcleo de Economia do Sincomercio Araraquara, com base em dados do Cadastro Único, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) no Estado de São Paulo, apresenta evidências que contradizem essa visão.
Queda significativa no número de beneficiários
De acordo com a análise, entre novembro de 2023 e novembro de 2025, aproximadamente 1,3 milhão de pessoas deixaram de receber o Bolsa Família em São Paulo, o que representa uma redução de 19% no total de beneficiários. Apenas nos últimos doze meses do período estudado, foram registradas 922 mil pessoas a menos no programa, equivalente a uma queda de 14%.
Segundo informações do Ministério do Desenvolvimento Social, o principal motivo para essa diminuição foi o crescimento do emprego e do rendimento do trabalho, que elevou a renda familiar acima dos critérios de elegibilidade do programa. Isso indica que, em vez de desencorajar a busca por ocupação, o Bolsa Família atua como um complemento de renda que é naturalmente substituído quando as condições econômicas melhoram.
Expansão do mercado de trabalho paulista
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) corroboram essa tendência. Nos últimos dois anos, o número de pessoas ocupadas aumentou de forma expressiva no estado de São Paulo, atingindo a marca de 24,35 milhões em 2025. Essa evolução impacta diretamente na massa de rendimentos, pois representa um contingente maior de trabalhadores direcionando seus recursos para o pagamento de dívidas, contas e consumo, fortalecendo a economia local.
O Cadastro Único, instrumento do governo que identifica famílias de baixa renda para inclusão em programas sociais, também reflete essa dinâmica. No mesmo período de dois anos, foram registradas 853 mil pessoas a menos no cadastro no estado, enquanto no Brasil como um todo o contingente permaneceu relativamente estável. Atualmente, São Paulo tem uma das menores proporções de inscritos no CadÚnico do país, ficando bem abaixo da média nacional.
Funcionamento do programa e vulnerabilidade estrutural
Com um valor médio de R$ 678 por família no Estado de São Paulo, o Bolsa Família atua como complemento de renda e não como substituto do trabalho. O acesso ao benefício está condicionado ao cumprimento de exigências nas áreas de saúde e educação, e a permanência no programa é automaticamente revista à medida que a renda do trabalho cresce, o que explica a saída de beneficiários em períodos de maior ocupação.
Paralelamente, outro dado chama a atenção: o Benefício de Prestação Continuada (BPC), concedido a idosos ou pessoas com deficiência com algum impedimento, aumentou em 102 mil pessoas em dois anos, sobretudo entre pessoas com deficiência (PCDs). Isso indica que a vulnerabilidade estrutural cresce, enquanto a pobreza associada ao mercado de trabalho diminui, destacando a necessidade de políticas diferenciadas para cada grupo.
Conclusões e desafios futuros
Portanto, os dados não sustentam a tese de que o Bolsa Família desestimula o trabalho. Pelo contrário, mostram que, quando há emprego e renda disponíveis, há uma tendência natural de desligamento do programa. O principal desafio hoje está em ampliar o acesso a empregos que garantam renda estável e, ao mesmo tempo, assegurar proteção adequada a quem não consegue se sustentar pelo mercado de trabalho.
As evidências sugerem que políticas de transferência de renda reagem aos ciclos econômicos, enquanto a vulnerabilidade estrutural é mais rígida e exige respostas permanentes do Estado. Em São Paulo, o exemplo é claro: o crescimento econômico e a geração de empregos têm sido fatores decisivos para a redução da dependência de programas sociais, reforçando o papel do Bolsa Família como uma rede de segurança temporária, e não como um incentivo à ociosidade.