OMS reúne especialistas para discutir vacinação contra Ebola no Congo
OMS reúne especialistas sobre Ebola no Congo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) convocou para esta terça-feira (19) uma reunião de especialistas com o objetivo de discutir possíveis estratégias de vacinação contra o avanço do surto de Ebola no leste da República Democrática do Congo (RDC). De acordo com a OMS, mais de 500 casos suspeitos e pelo menos 130 mortes foram registrados no atual surto, causado pela variante Bundibugyo do vírus, uma cepa para a qual ainda não existem vacinas ou tratamentos aprovados.

Classificação como emergência de saúde pública

A preocupação das autoridades sanitárias aumentou depois que a OMS e o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC) classificaram a situação como uma emergência de saúde pública. A variante Bundibugyo pode apresentar uma taxa de mortalidade de até 40%. Além da falta de vacinas específicas, as autoridades enfrentam outro grande desafio: a baixa capacidade de testagem na região afetada. Segundo a OMS, os exames disponíveis atualmente conseguem processar apenas seis testes por hora para identificar a variante Bundibugyo.

Falta de testes atrasou identificação do surto

A representante da OMS no Congo, Anne Ancia, afirmou que houve demora para detectar o avanço da doença porque os testes inicialmente utilizados na região eram direcionados à variante Zaire do Ebola, mais comum em surtos anteriores. Ela destacou que ainda existe “grande incerteza” sobre a real dimensão da epidemia. “A capacidade de vigilância e investigação é muito limitada nessa região de forma geral”, declarou. Segundo Ancia, a OMS já enviou 12 toneladas de suprimentos médicos ao Congo, e outras seis toneladas devem chegar nesta terça-feira. O material inclui equipamentos de proteção para profissionais de saúde e itens para coleta de amostras. O surto também atingiu Uganda, onde dois casos confirmados foram identificados.

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O que os especialistas vão discutir

A principal discussão da reunião envolve a possibilidade de uso emergencial de vacinas desenvolvidas para outras variantes do Ebola. Entre elas está a Ervebo, fabricada pela farmacêutica Merck, atualmente aprovada para proteção contra a cepa Ebola Zaire. Estudos em animais indicaram que o imunizante pode oferecer algum grau de proteção também contra a variante Bundibugyo. Além da vacina, os especialistas também avaliarão possíveis tratamentos experimentais. “Quando você enfrenta um surto de uma variante sem medidas específicas aprovadas, precisamos analisar quais evidências existem para decidir qual abordagem seguir”, afirmou Mosoka Fallah, diretor interino do departamento de ciência do Africa CDC. A decisão final sobre o eventual uso emergencial de vacinas ou o início de testes clínicos caberá aos governos da República Democrática do Congo e de Uganda.

Empresa amplia produção de teste capaz de detectar variante

A empresa BioFire Defense, ligada à farmacêutica francesa bioMérieux, anunciou que está ampliando a capacidade de produção de um teste aprovado nos Estados Unidos capaz de detectar diferentes variantes do Ebola, incluindo a Bundibugyo. Segundo a companhia, o objetivo é apoiar os esforços internacionais de contenção do surto. “A BioFire Defense está em contato com autoridades de saúde pública e parceiros internacionais para monitorar a evolução da situação e avaliar possíveis necessidades de apoio”, informou a empresa em nota.

Estoque de vacinas já está disponível

A aliança internacional Gavi, responsável por estoques emergenciais de vacinas, informou que já mantém 2 mil doses no Congo, caso os especialistas recomendem iniciar estudos clínicos ou uso controlado. Mesmo assim, pesquisadores alertam que controlar o avanço da doença pode ser difícil. Richard Hatchett, diretor da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI), lembrou que um outro surto de Ebola na mesma região do Congo, entre 2018 e 2019, levou cerca de dois anos para ser controlado, mesmo com vacina já disponível na época. “A situação de segurança na região é muito séria. Isso torna testes clínicos e ações de contenção muito mais desafiadores”, disse.

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Falta de recursos preocupa OMS

A OMS também afirmou que enfrenta dificuldades financeiras para responder ao avanço do Ebola no Congo. Segundo Anne Ancia, os cortes globais em financiamento para saúde afetaram diretamente a capacidade de resposta da organização. Ela citou o impacto da saída oficial dos Estados Unidos da OMS em janeiro e a redução de investimentos internacionais em saúde promovida pelo governo do presidente Donald Trump. Apesar disso, Ancia afirmou que a cooperação técnica entre os EUA e a OMS continua funcionando. “Entendemos que não receberemos os recursos, tudo bem, mas queremos continuar trocando informações e colaborando”, disse. O Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) informou que recebeu apenas 34% dos US$ 1,4 bilhão solicitados para ações humanitárias no Congo neste ano.

Por que ainda não existe vacina específica

Especialistas afirmam que surtos da variante Bundibugyo são raros e imprevisíveis, o que dificulta o desenvolvimento e aprovação de vacinas específicas. Segundo Courtney Woolsey, professora assistente da Universidade do Texas Medical Branch, a baixa frequência desses surtos dificulta a realização de estudos clínicos tradicionais para comprovar eficácia. “Do ponto de vista regulatório, esses surtos são esporádicos e imprevisíveis, o que cria barreiras substanciais para levar uma vacina específica ao uso emergencial ou clínico”, afirmou.

Entenda o Ebola

O Ebola é uma doença viral grave transmitida pelo contato direto com sangue, secreções ou fluidos corporais de pessoas infectadas. Os sintomas incluem: febre alta, dores musculares, vômitos, diarreia, sangramentos e falência de órgãos nos casos graves. Os surtos mais frequentes ocorrem em países da África Central e Ocidental. A doença ficou mundialmente conhecida após a grande epidemia registrada entre 2014 e 2016 na África Ocidental, que matou mais de 11 mil pessoas.