MP-SP exige criação de leitos psiquiátricos em 12 cidades da região de Sorocaba
MP exige leitos psiquiátricos em 12 cidades de Sorocaba

MP-SP exige criação de leitos psiquiátricos em 12 cidades da região de Sorocaba

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) está exigindo que doze municípios da região de Sorocaba cumpram com a obrigação de implantar leitos para atendimento psiquiátrico, uma determinação que já completou mais de uma década de descumprimento. A medida faz parte da luta antimanicomial e da reforma psiquiátrica brasileira, que completou 25 anos em 2026 com o objetivo de humanizar o tratamento de pessoas com transtornos mentais.

Lei histórica e compromissos não cumpridos

A criação da lei da reforma psiquiátrica teve como foco principal acabar com o isolamento em hospitais psiquiátricos, oferecendo atendimento em rede integrada com outras terapias no Sistema Único de Saúde (SUS). Na região de Sorocaba, em 2015, as cidades se comprometeram com o MP-SP a implementarem os leitos necessários para completar essa integração da rede de saúde mental.

Porém, mais de dez anos depois, doze municípios continuam sem cumprir com este objetivo fundamental: Boituva, Guapiara, Itaberá, Itapetininga, Itararé, Itu, Piedade, Pilar do Sul, Porto Feliz, Salto, São Roque e Tietê.

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Impactos da falta de leitos na região

De acordo com o MP-SP, a ausência destes leitos no interior de São Paulo sobrecarrega significativamente o Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS). Na situação atual, a região perde 53 possibilidades de internação, e os pacientes que precisam deste atendimento especializado acabam recebendo no máximo uma medicação antes da alta médica, sem o acompanhamento adequado.

O promotor do Ministério Público Thiago Henrique Bernini Ramos explica que alguns pontos de desinformação têm sido esclarecidos em reuniões com as prefeituras. "As prefeituras têm se disposto a atender a demanda. Há uma certa resistência de alguns hospitais, há uma crença equivocada de que são pacientes que serão complicados e há um entendimento equivocado também de que seria necessária a contratação de psiquiatras, o que não é verdade porque o atendimento pode ser com o psiquiatra do CAPS", pontua o promotor.

O que diz a legislação e os prazos

No marco da luta antimanicomial, a internação se tornou último recurso de tratamento, sendo recomendada apenas quando as outras ações já não demonstram mais eficiência no acompanhamento do paciente. Como suporte para esse projeto, em 2002, o Ministério da Saúde determinou a criação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) em todo o país.

No estado de São Paulo ficou definido, a partir de 2005, que os hospitais públicos deveriam implantar, em até três anos, leitos para atendimentos psiquiátricos. O Ministério da Saúde define que os municípios devem ofertar um leito de saúde mental a cada 23 mil habitantes.

As prefeituras estão notificadas com um prazo de 60 dias para apresentar um plano de trabalho com a meta de que tudo esteja funcionando até o final do ano, sob risco de multa e ação judicial.

Riscos para os pacientes e a importância do atendimento local

O psicólogo e fundador do Fórum da Luta Antimanicomial de Sorocaba, Lúcio Costa, alerta sobre a necessidade deste atendimento local aos pacientes com transtornos mentais. A falta de um leito na cidade do paciente o distancia de sua rede de apoio familiar e dificulta a garantia de que ele terá um acompanhamento o mais rápido possível.

"Essa pessoa está em um momento onde ela precisa de um acolhimento especializado, e quando ela não tem este atendimento, ela entra em um processo profundo de sofrimento. Isso pode gerar outras consequências clínicas para a vida desta pessoa", explica Costa.

"O leito, no hospital geral, ele é fundamental para a pessoa que está em crise aguda. Ou seja, em um momento específico da vida daquela pessoa ela precisa de uma atenção mais direcionada, mais específica, e esse leito é o que vai dar o respaldo para ela ser cuidada e tratada", completa o psicólogo.

Situação atual em Sorocaba e respostas dos municípios

Em Sorocaba, deveria ter pelo menos 33 leitos conforme a determinação do Ministério da Saúde, mas no cadastro nacional estão registrados 32 em convênio com o SUS:

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  • 16 vagas no Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS), que atende 48 cidades da região
  • 16 na Santa Casa, para atender exclusivamente moradores da cidade
  • 2 vagas em um hospital particular de Sorocaba

Entre os municípios notificados, algumas prefeituras já se manifestaram:

  1. A prefeitura de Itapetininga admitiu que ainda não implantou os leitos e atribuiu o atraso às obras no hospital, mas está preparando um plano para criar sete leitos em até 60 dias.
  2. Guapiara confirmou que está em processo com o Departamento Regional de Saúde para implantar um único leito de psiquiatria, mas ainda não há prazo.
  3. Em Tietê, a prefeitura disse que não tem leitos e que a implantação depende da Santa Casa, sem prazo definido, com 13 pessoas aguardando vaga para internação.
  4. Itararé afirmou que vai implantar dez vagas na Santa Casa em até 60 dias.
  5. Em Itu, a prefeitura disse que não tem leitos e que os casos mais graves são encaminhados para Sorocaba.
  6. Em Salto, os leitos até existem, mas ainda não estão em funcionamento, com a prefeitura elaborando um plano para colocá-los em operação.

As outras cidades citadas não responderam como está o processo de implantação dos leitos. O Ministério Público também vai fiscalizar os municípios que dizem já cumprir o pacto, para verificar se o número de leitos é suficiente para atender a demanda da população.