A administração do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) segurou a liberação de recursos destinados a investimentos municipais ao longo de 2025, um ano pré-eleitoral, causando frustração entre prefeitos aliados que esperavam apresentar essas obras à população. Apenas na última semana de dezembro, sob forte pressão pública, o governo paulista desbloqueou valores que praticamente igualaram o total do ano anterior.
Os números do contingenciamento
Os dados da Secretaria da Fazenda e Planejamento de São Paulo revelam a dimensão da retenção. Em 2024, o estado havia empenhado, em valores já corrigidos pela inflação, cerca de R$ 1,7 bilhão para ser investido pelos municípios via transferências. Até a segunda quinzena de dezembro de 2025, esse valor era de apenas R$ 1,27 bilhão.
O cenário só mudou no final do ano, quando, em meio a cobranças abertas de aliados, foram liberados mais R$ 424 milhões. Com isso, o total de 2025 ficou apenas R$ 5 milhões abaixo do valor aplicado no ano anterior, em uma clara manobra de equalização de última hora.
Pressão dos prefeitos e SOS ao governador
Com os recursos travados, prefeitos da base de Tarcísio se viram no dilema de pressionar por verbas sem romper a aliança política. A tensão ficou evidente em um evento no dia 9 de dezembro em Anhumas, cidade a 550 km da capital, onde 17 prefeitos da região do Pontal do Paranapanema se reuniram para pedir a liberação dos valores.
No salão, uma faixa com a frase "SOS governador: cidades do oeste paulista pedem socorro" sintetizava o desespero. O prefeito de Anhumas, Adailton Menossi (PSD, tentou suavizar o tom, declarando à imprensa local que "isso aqui não é um protesto, essa faixa é só um pedido".
A insatisfação não se limitou ao oeste. Prefeitos do Alto Tietê, no leste do estado, já articulam movimento similar. Além disso, municípios ligados ao PP avaliam apoiar outro candidato no lugar de Tarcísio, caso sua reeleição se confirme, demonstrando a erosão política causada pela falta de recursos.
Obras paradas e atritos no Palácio
Os repasses congelados afetaram uma série de projetos essenciais para as cidades. Segundo dados da Secretaria de Governo e Relações Institucionais, ficaram sem recursos:
- Reformas de prédios para guardas municipais e escolas.
- Investimentos em pequenas obras viárias.
- Compras de tratores e maquinário.
- Construção de campos de futebol.
Além da justificativa fiscal – 2025 foi um ano de arrecadação fraca no estado –, políticos ouvidos pela reportagem reclamam de um problema no fluxo interno do governo. Desde o início do mandato, deputados e prefeitos criticam nos bastidores a relação entre o secretário da Casa Civil, Arthur Lima (amigo de infância de Tarcísio), e o secretário de Governo, Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD.
A queixa é que acordos fechados com assessores da Casa Civil não avançavam ao chegar à Secretaria de Governo, atrasando a assinatura de convênios e a liberação do dinheiro. Em 2025, cerca de 65% do total de recursos transferidos às prefeituras passou pela pasta comandada por Kassab.
Contexto político e justificativas do governo
Aliados do governador afirmam que Kassab também esteve focado, ao longo do ano, na reorganização política do PSD para as eleições de 2026, atuando na filiação de prefeitos. Ele chegou a articular uma possível candidatura ao governo paulista caso Tarcísio disputasse a Presidência, plano suspenso após o anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Em nota oficial, o Palácio dos Bandeirantes não respondeu aos relatos de desentendimento entre as pastas. A administração estadual destacou que, ao longo dos três anos de mandato, Tarcísio já enviou R$ 3,5 bilhões aos municípios para investimento.
O governo também argumentou que seus investimentos não se limitam às transferências voluntárias, citando a realização de "mais de R$ 30 bilhões em investimentos em mobilidade urbana e logística" em diferentes regiões. A gestão afirmou que as ações de repasse são planejadas de forma integrada e com diálogo contínuo com prefeitos.
O presidente da Associação Paulista de Municípios (APM), Fred Guidoni, avaliou que, diante do cenário fiscal adverso, foi natural que o estado reduzisse os repasses. Ele alertou, porém, para o desequilíbrio na distribuição de recursos: "As cidades, a cada dia que passa, recebem mais atribuições, mais obrigações, mas a participação no bolo da arrecadação não acompanha".