STF estabelece nova regra para pagamento de penduricalhos no setor público
O Supremo Tribunal Federal (STF) tomou uma decisão histórica que redefine as regras para o pagamento dos chamados penduricalhos no Judiciário e no Ministério Público. Na última segunda-feira (23), o ministro Gilmar Mendes determinou que tribunais e órgãos do Ministério Público só podem pagar essas verbas indenizatórias extras quando houver lei federal autorizando expressamente.
Prazos rigorosos para suspensão de pagamentos
Na decisão, Gilmar Mendes estabeleceu prazos específicos para a adequação dos órgãos públicos às novas regras. Os tribunais e Ministérios Públicos estaduais têm 60 dias para suspender o pagamento de verbas indenizatórias que se baseiam exclusivamente em leis estaduais. Além disso, em 45 dias, essas instituições devem interromper qualquer pagamento de penduricalhos criados por decisões administrativas internas ou atos normativos sem respaldo legal federal.
Esta medida segue uma tendência de controle iniciada no início de fevereiro, quando o ministro Flávio Dino já havia determinado que todos os Poderes revisassem e suspendessem pagamentos que ultrapassassem o teto constitucional do funcionalismo público.
O problema dos retroativos e supersalários
O pagamento retroativo tem sido um dos principais mecanismos de remuneração extra no sistema Judiciário brasileiro. Um levantamento realizado pelas entidades civis República.org e Transparência Brasil revela dados alarmantes sobre essa prática.
- Em apenas dois anos, os Ministérios Públicos estaduais e da União pagaram quase R$ 3 bilhões em retroativos a seus servidores
- 89% desses valores foram pagos sem qualquer decisão judicial, apenas com base em atos administrativos internos
- Entre os penduricalhos mais comuns está a licença compensatória – um dia de folga para cada três dias trabalhados – que pode ser convertida em valores monetários
Os números mostram uma concentração preocupante de benefícios:
- 60% dos promotores e procuradores ativos receberam algum valor atrasado
- 1,9 mil servidores receberam mais de R$ 500 mil em penduricalhos
- 600 funcionários ultrapassaram a marca de R$ 1 milhão
- 67 servidores receberam valores superiores a R$ 2 milhões
Desigualdade salarial e necessidade de reforma
Guilherme Cezar Coelho, fundador da República.org, destaca a disparidade criada por esses mecanismos: "Você tem menos de 1% dos servidores recebendo supersalários e 99% dos servidores, muitas vezes com defasagem salarial, sem plano de carreira, sem benefício. Então, a gente precisa olhar essa polêmica dos supersalários e aproveitar para reorganizar os salários públicos".
Diálogo entre Poderes e próximos passos
O presidente do STF, Luiz Edson Fachin, já convocou uma reunião com os presidentes do Senado, da Câmara dos Deputados, do Tribunal de Contas da União e a Procuradoria-Geral da República para discutir o tema dos penduricalhos. Equipes técnicas dos dois Poderes vão trabalhar em conjunto na elaboração de uma proposta de regra de transição que limite os pagamentos fora do teto constitucional.
Nesta quarta-feira (25), o plenário do Supremo deve decidir se referenda a determinação anterior do ministro Flávio Dino, que suspendeu todos os pagamentos de verbas indenizatórias sem base legal sólida. Esta decisão representa um passo significativo na tentativa de estabelecer maior transparência e equidade na remuneração do serviço público brasileiro.



