Zelensky afirma que Ucrânia não está perdendo guerra e exige tropas europeias na linha de frente
Zelensky: Ucrânia não está perdendo guerra e pede tropas europeias

Presidente ucraniano rejeita cenário de derrota e defende presença militar internacional

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, concedeu uma entrevista exclusiva à agência de notícias AFP nesta sexta-feira (20), dias antes do quarto aniversário da invasão russa, e fez declarações contundentes sobre o andamento do conflito. O líder ucraniano afirmou categoricamente que seu país não está perdendo a guerra contra a Rússia, revelou que Kiev retomou centenas de quilômetros quadrados em uma nova contraofensiva e defendeu que a Europa deveria posicionar tropas diretamente na linha de frente em caso de cessar-fogo.

Negativa à derrota e avanços no sul

"Não podem dizer que estamos perdendo a guerra. Honestamente, de forma alguma a estamos perdendo, definitivamente. A pergunta é se a venceremos", declarou Zelensky à AFP, no palácio presidencial na capital ucraniana. "Sim, essa é a pergunta, mas é uma pergunta muito custosa", acrescentou o líder, demonstrando a complexidade do cenário atual.

Zelensky revelou que as forças ucranianas estão ganhando terreno em contraofensivas ao longo da linha de frente sul. "Não entrarei em muitos detalhes", disse sobre os avanços, "mas hoje posso parabenizar, antes de tudo, nosso Exército, todas as forças de defesa, porque até hoje 300 quilômetros [quadrados] foram libertados." O presidente não especificou em que período isso ocorreu, e a AFP não conseguiu verificar a afirmação de forma independente.

Pressões internacionais e disputa pelo Donbass

Enquanto os combates persistem, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pressiona a Ucrânia a aceitar um acordo com a Rússia, que exige a anexação de territórios para encerrar o conflito. Kiev se recusa a discutir a possibilidade de cedê-los em troca de um acordo de paz. Atualmente, Washington e Moscou pressionam Kiev a ceder a disputada região do Donbass, no extremo leste ucraniano, à Rússia.

"Tanto os americanos quanto os russos dizem que 'se querem que a guerra termine amanhã, saiam do Donbass'", afirmou Zelensky sobre a região, rica em minerais, que a Rússia reivindica como sua. A Ucrânia tem reiteradamente descartado retirar suas tropas da região, argumentando que tal medida apenas encorajaria a Rússia a avançar ainda mais.

As negociações mediadas pelos Estados Unidos em Genebra no início desta semana não conseguiram avançar na questão-chave da divisão territorial e terminaram sem acordo para pôr fim ao conflito. Moscou prometeu tomar todo o Donbass à força se Kiev não se retirar do território, enquanto Vladimir Putin não dá sinais de abertura em relação às suas exigências rígidas para encerrar a invasão de quatro anos.

Desafios tecnológicos e eleições

Zelensky também abordou os desafios tecnológicos enfrentados pelas forças ucranianas, incluindo apagões generalizados dos terminais de internet Starlink ao longo da frente ucraniana. "Há problemas, há desafios", afirmou o presidente, mas destacou que os reveses enfrentados pelo lado russo são "muito mais sérios".

Além das exigências territoriais, os Estados Unidos pressionam a Ucrânia a realizar eleições presidenciais como parte de seu amplo plano para um acordo de paz. Zelensky, que defende a realização de um pleito somente ao fim da guerra, afirmou que a Rússia pressiona por uma eleição rápida porque quer removê-lo do poder.

"Vamos ser honestos: os russos só querem me substituir", declarou Zelensky. "Ninguém quer eleições durante uma guerra. Todos têm medo de seu efeito destrutivo", acrescentou. O presidente ucraniano citou os obstáculos para realizar qualquer votação com os combates em andamento, particularmente em cidades que estão sendo bombardeadas pela Rússia.

Garantias de segurança e tropas estrangeiras

Zelensky afirmou que uma votação só pode ser realizada na Ucrânia se seus aliados oferecerem garantias de segurança robustas para dissuadir ataques russos. E ele disse à AFP nesta sexta-feira que quer tropas estrangeiras - destinadas a serem enviadas à Ucrânia em caso de interrupção dos combates - posicionadas próximas à linha de frente.

"Gostaríamos de ver o contingente mais perto da linha de frente. Claro, ninguém quer estar na primeira linha, e claro, os ucranianos gostariam que nossos parceiros estivessem conosco na linha de frente", concluiu Zelensky, reforçando seu apelo por um maior envolvimento militar internacional no conflito.

A guerra mais letal da Europa desde a Segunda Guerra Mundial — que começou quando Vladimir Putin ordenou que tropas russas cruzassem a fronteira ucraniana em 24 de fevereiro de 2022 — já deixou dezenas de milhares de civis e centenas de milhares de militares mortos de ambos os lados. Neste inverno europeu, as forças russas intensificaram dramaticamente uma campanha de ataques sistemáticos contra instalações de energia da Ucrânia, deixando milhões de pessoas no frio e no escuro por semanas, em temperaturas congelantes.