‘Eu quero a Groenlândia’: o interesse renovado de Trump no Ártico e a batalha geopolítica
A Groenlândia, uma vasta ilha de contrastes entre colonização histórica, riquezas minerais subexploradas e desafios econômicos, retornou ao centro das atenções globais após declarações recentes de Donald Trump. O ex-presidente dos Estados Unidos reafirmou sua defesa pela aquisição deste território estratégico no Ártico, reacendendo debates sobre soberania, recursos naturais e o tabuleiro geopolítico mundial.
Uma terra de histórias e feridas coloniais
Por séculos, os inuítes, povo originário da região, viveram em relativo isolamento, adaptando-se ao ambiente hostil com roupas de pele de urso polar e uma dieta baseada em pesca. Antigamente chamados de esquimós – termo hoje considerado pejorativo –, viram sua história transformada com a chegada dos vikings, que batizaram a ilha de Groenlândia, ou “terra verde”, em uma estratégia de marketing para atrair colonos, apesar da paisagem predominantemente branca e gelada.
A colonização dinamarquesa, iniciada há cerca de 300 anos, deixou marcas profundas. Em Nuuk, a capital, uma estátua homenageia o explorador dinamarquês que liderou a cristianização forçada da população. Os dinamarqueses impuseram seu idioma nas escolas, gradualmente apagando tradições inuítes, e concentraram os lucros da caça à baleia e do comércio de peles de foca, mantendo a Groenlândia como uma colônia de exploração com pouco investimento local.
Autonomia difícil e riquezas escondidas
Hoje, a Groenlândia busca sua independência, mas enfrenta o desafio da dependência financeira. Grande parte de sua economia depende de ajuda externa, que sustenta educação e saúde gratuitas em um território que luta contra altos índices de alcoolismo e suicídio. No entanto, sob sua espessa camada de gelo – que derrete a uma velocidade três vezes maior do que a média global –, escondem-se minerais valiosos essenciais para a fabricação de carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos e armas.
Esse potencial atrai não apenas Trump, mas também potências como China e Rússia. A China, maior produtora mundial de carros elétricos e turbinas eólicas, constrói mais navios quebra-gelo do que Rússia e Europa juntas, visando uma nova Rota da Seda mais curta pelo Ártico, ao lado de sua aliada russa. O degelo abre rotas de navegação inéditas e torna portos da região cada vez mais estratégicos.
A resposta militar da Otan e as tensões crescentes
Para defender interesses ocidentais, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) fortalece sua presença militar no Ártico. Em Keflavik, Islândia, caças F-35 operados por oficiais multinacionais sob comando norueguês patrulham o espaço aéreo, capazes de responder rapidamente a ameaças, como as provenientes da Rússia. “A gente pode dar uma resposta inicial a algo vindo da Rússia, por exemplo”, afirma Trond Hagen, comandante da Força Aérea Norueguesa.
Além disso, a Otan utiliza o E-3, um Boeing 707 equipado com tecnologia de ponta para monitoramento aéreo em um raio de 300 mil quilômetros quadrados, e vigia submarinos russos que partem de bases árticas. A recente adesão de Finlândia e Suécia à aliança reflete preocupações com a segurança regional, com tropas americanas já treinando finlandeses perto da fronteira russa.
A proposta de Trump e a resistência groenlandesa
Em meio a isso, Trump, que já ameaçou retirar os EUA da Otan, reiterou no Fórum Econômico Mundial em Davos seu interesse pela Groenlândia, sugerindo um referendo para perguntar aos 56 mil habitantes se aceitariam uma venda. Em 2019, ele ofereceu US$ 100 milhões com promessas de investimentos, lembrando a compra do Alasca em 1868 por US$ 7 milhões – um negócio histórico.
No entanto, leis internacionais protegem a soberania territorial, e na Groenlândia, o primeiro-ministro incentivou a população a preparar kits de emergência, incluindo água, alimentos e até armas de caça. Para muitos moradores, valorizadores de sua cultura e história, a mensagem é clara: este não é um terreno à venda, simbolizando uma resistência à ideia de transação colonial em pleno século XXI.