Em uma movimentação que pode redefinir os rumos do conflito no Oriente Médio, o presidente americano Donald Trump propôs a criação de um Conselho de Paz para administrar Gaza. O anúncio, feito em meio a um início de ano turbulento, traz um plano ambicioso que visa não apenas uma trégua, mas uma transformação estrutural no território palestino.
Os pilares de um plano arriscado
A proposta, divulgada em 20 de janeiro de 2026, tem objetivos de grande alcance: pacificar Gaza, desarmar o grupo Hamas, promover a retirada das tropas israelenses e, por fim, reconstruir a Faixa de Gaza com uma nova visão. Para executar essa missão complexa, Trump propõe um conselho formado por uma ampla gama de nações, incluindo algumas consideradas controversas no contexto do conflito.
Entre os convidados estão Catar e Turquia, países que mantêm relações e oferecem apoio ao Hamas. A inclusão dessas nações foi motivo de reclamação pública do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. A lógica por trás da escolha, no entanto, é inédita: trazer para a mesa de solução justamente os atores que historicamente fizeram parte do problema, na esperança de que eles se comprometam com a paz.
Composição e polêmicas do Conselho
O Conselho da Paz será presidido pelo próprio Donald Trump. A equipe de operação conta com figuras próximas ao presidente, como o secretário de Estado Marco Rubio, o emissário especial e amigo de golfe Steve Witkoff, e o genro Jared Kushner, que já mediou uma trégua anterior na região. Dois bilionários judeus, Yakir Gabay e Mark Rowan, também integrarão o grupo.
Para o papel de executivo-chefe das operações no terreno, foi convidado o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, uma escolha que gera controvérsia tanto na esquerda quanto na direita política. No lado palestino, a proposta prevê um governo tecnocrático apolítico, que seria presidido pelo engenheiro Ali Shaath, que teve uma passagem menor pela Autoridade Palestina.
A lista de países convidados é extensa e diversa, incluindo nações como Albânia, Argentina, Egito, França, Índia, Jordânia, Marrocos, Reino Unido e, mais recentemente, a Rússia. O Brasil, sob o governo Lula, também recebeu um convite, mas até o momento manteve um silêncio oficial sobre sua possível participação.
O impasse central e uma janela de oportunidade
O plano de vinte pontos elaborado por Trump já recebeu um aval significativo: foi aprovado por todo o Conselho de Segurança da ONU, o que lhe confere uma legitimidade internacional rara. No entanto, o obstáculo imediato permanece. O Hamas condiciona a entrega de armas à retirada completa de Israel de Gaza, enquanto Israel exige o desarmamento prévio do grupo para sair do território.
Apesar das críticas e do ceticismo natural que cerca qualquer iniciativa de Trump, analistas apontam que esta pode ser uma oportunidade única. A proposta oferece um mecanismo concreto e com apoio global para tentar quebrar um ciclo de violência que parecia insolúvel. A reconstrução de Gaza, financiada em parte por uma contribuição de um bilhão de dólares de cada país que quiser integrar o conselho permanentemente, é um atrativo para uma região devastada.
A cerimônia de assinatura da constituição do Conselho está marcada para acontecer durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, adicionando um capítulo geopolítico inesperado ao evento. Enquanto o mundo observa com uma mistura de esperança e cautela, a pergunta que fica é: em um conflito tão complexo e arraigado, um plano considerado mirabolante pode ser justamente a chave para um novo começo?