Trump menospreza aliados da Otan após ameaçar anexação da Groenlândia
Trump critica Otan e insiste em ameaças à Groenlândia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a provocar tensões entre os aliados ao menosprezar publicamente as reações de países europeus da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). As declarações ocorrem em meio às recorrentes ameaças de Washington de anexar a Groenlândia, território semiautônomo da Dinamarca, membro da aliança.

Declarações polêmicas e justificativas geopolíticas

Em suas afirmações, Trump questionou a relevância da Otan sem os Estados Unidos. "Rússia e China não têm nenhum medo da Otan sem os EUA, e duvido que a Otan estaria lá para nós se realmente precisássemos dela", disse o mandatário. Ele ainda se atribuiu o crédito por pressionar os países do bloco a elevarem seus investimentos em defesa, alegando que os levou de 2% para 5% do PIB. "A maioria não pagava suas contas, até eu aparecer. Os EUA, ingenuamente, estavam pagando por eles!", afirmou Trump, completando que, sem sua intervenção, "a Rússia teria toda a Ucrânia agora".

As ameaças à Groenlândia foram retomadas após ações militares dos EUA na Venezuela. Trump justificou a possível anexação, ilegal perante o direito internacional, como necessária para a segurança nacional americana, citando a presença de navios chineses e russos no Mar do Ártico. Especialistas consultados pela Agência Brasil avaliam que o objetivo real seria conter o avanço comercial da China na região, cujo valor do frete tende a cair com o derretimento das calotas polares.

Reação dos aliados e análise de especialista

Em resposta às provocações, oito dos 32 países da Otan – França, Alemanha, Reino Unido, Portugal, Espanha, Itália, Polônia e a própria Dinamarca – emitiram um comunicado conjunto na terça-feira, 6 de janeiro de 2026, defendendo a soberania dinamarquesa. "Cabe à Dinamarca e à Groenlândia, e somente a elas, decidir sobre assuntos que dizem respeito à Dinamarca e à Groenlândia", afirmaram, reconhecendo, porém, os EUA como um "parceiro essencial" para a segurança no Ártico.

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, foi mais contundente, alertando que um ataque de um membro da Otan a outro parceiro da aliança significaria "o fim de tudo".

Para o major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e ex-vice-presidente da EuroDefense-Portugal, a resposta europeia foi "tímida". Ele classificou as publicações de Trump como "um bullying puro e duro contra os aliados". "A Europa está em estado de choque. Os países da Europa vivem uma orfandade em relação aos EUA", analisou.

A Otan sob a perspectiva europeia

Agostinho Costa ofereceu uma visão crítica sobre a função real da aliança. Para ele, mais do que proteger a Europa, a Otan representa os interesses estratégicos e geopolíticos norte-americanos, servindo de justificativa para a presença militar dos EUA no continente, incluindo bases e armas nucleares.

O general também criticou a "submissão patológica" da Europa e argumentou que o aumento dos gastos com defesa, pressionado por Trump, beneficiou principalmente a indústria bélica americana. "[O aumento] é, fundamentalmente, um negócio que impôs à Europa uma transferência dos seus orçamentos de defesa para a indústria militar norte-americana", concluiu, destacando a falta de capacidade da indústria europeia para suprir essa demanda.

O episódio evidencia uma crise de confiança profunda dentro da aliança atlântica, com os EUA adotando uma postura confrontadora que coloca em xeque os princípios de defesa coletiva e soberania entre os parceiros.