Trump anuncia criação do Conselho da Paz durante discurso no Fórum Econômico Mundial
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, irá oficializar nesta quinta-feira (22) a criação do "Conselho da Paz", em cerimônia realizada no prestigiado Fórum Econômico de Davos. A iniciativa, que já conta com aproximadamente 60 lideranças mundiais convidadas, tem como objetivo declarado atuar na manutenção da paz e na reconstrução da Faixa de Gaza, podendo futuramente expandir sua atuação para outros conflitos internacionais.
Estrutura e poder concentrado na figura de Trump
De acordo com documentos obtidos pela agência Reuters, o estatuto do conselho estabelece que Donald Trump terá mandato vitalício como presidente do grupo, com amplos poderes de decisão. Países interessados em obter um assento permanente na estrutura precisarão realizar uma contribuição financeira de US$ 1 bilhão (equivalente a aproximadamente R$ 5,37 bilhões), recursos que serão administrados diretamente pelo presidente norte-americano.
Temores internacionais e questionamentos sobre a efetividade
A comunidade internacional tem manifestado preocupação significativa com a possibilidade de que o Conselho da Paz se transforme em uma espécie de "ONU paralela", enfraquecendo o papel tradicional da Organização das Nações Unidas. Analistas e diplomatas apontam que a concentração de poder em uma única liderança e a exclusão inicial de representantes palestinos geram dúvidas sobre a legitimidade e eficácia do novo órgão.
Composição e países envolvidos
O conselho executivo fundador conta com sete membros nomeados por Trump, incluindo figuras como:
- Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA
- Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico
- Jared Kushner, genro de Trump e enviado especial
- Ajay Banga, presidente do Banco Mundial
Entre os 25 países que já confirmaram participação estão:
- Israel
- Arábia Saudita
- Emirados Árabes Unidos
- Argentina
- Turquia
O dilema brasileiro: Lula entre a coerência e as relações diplomáticas
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva encontra-se em uma situação delicada após receber convite para integrar o conselho. Desde o início do conflito em Gaza, em outubro de 2023, Lula tem sido crítico contundente das operações militares israelenses e defensor da criação de um Estado palestino - posições que colidem diretamente com a proposta liderada por Trump.
Fontes próximas ao governo brasileiro indicam que Lula só deve avaliar se aceita ou não o convite na próxima semana. A decisão envolve um complexo equilíbrio: aceitar pode significar questionamentos sobre coerência política, enquanto recusar pode prejudicar a recente aproximação diplomática entre Brasil e Estados Unidos, especialmente após as negociações sobre tarifas para produtos brasileiros exportados.
Contexto histórico e funcionamento proposto
A criação do Conselho da Paz estava prevista na segunda fase do acordo de paz mediado pelos EUA e assinado por Israel e pelo grupo Hamas em outubro do ano passado. O plano de paz divulgado pela Casa Branca estabelece que a Faixa de Gaza se tornaria uma zona livre de grupos armados, sob comando de um governo de transição supervisionado pelo conselho.
Segundo a proposta oficial, o conselho terá papel consultivo, assessorando o comitê responsável pela administração provisória de Gaza. A Casa Branca afirma que a entidade "ajudará a apoiar uma governança eficaz e a prestação de serviços de alto nível" na região.
Críticas e perspectivas futuras
Especialistas em relações internacionais manifestam ceticismo considerável sobre o sucesso da iniciativa. Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getúlio Vargas, alerta que a estrutura "concentra poder demais em uma única liderança" e pode se tornar "uma espécie de ONU paralela, controlada pelos Estados Unidos".
A ausência de representação palestina na composição inicial do conselho levanta questões fundamentais sobre sua legitimidade. Como observou o apresentador Marcelo Lins, "um conselho que não tem em sua composição nenhum palestino para falar sobre Gaza deixa muitas dúvidas no ar" sobre os reais interesses e a efetividade do órgão.