Ameaça de Trump sobre petróleo para Cuba pode aprofundar crise energética na ilha
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou a pressão sobre o governo cubano ao assinar uma ordem executiva que ameaça impor tarifas adicionais aos países que fornecem petróleo à ilha caribenha. Esta medida representa um novo capítulo na escalada de tensões entre as duas nações e pode agravar significativamente a já crítica escassez de combustível em Cuba, que tem causado apagões massivos diários e graves consequências econômicas.
Ordem executiva e justificativa de segurança nacional
Na quinta-feira, 29 de janeiro, Trump declarou estado de emergência nacional, argumentando que "a situação em relação a Cuba constitui uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos". O documento acusa o governo cubano de desestabilizar a região e de se aliar a adversários dos EUA, como Rússia, China e Irã.
A ordem busca dissuadir países terceiros de vender petróleo para Cuba sob ameaça de tarifas mais altas, uma estratégia que especialistas interpretam como uma tentativa de estrangular economicamente a ilha. Desde seu primeiro mandato, Trump tem revertido a política de abertura de Barack Obama, restabelecendo restrições severas ao fluxo de dinheiro, bens e pessoas para Cuba.
Crise do petróleo e dependência externa
Cuba necessita de aproximadamente 110 mil barris de petróleo por dia, mas produz apenas cerca de 40 mil, tornando-se altamente dependente de importações. Após a intervenção dos EUA na Venezuela, que cortou o fornecimento venezuelano, o México emergiu como principal fornecedor, enviando cerca de 12 mil barres por dia durante 2025.
Contudo, a nova ordem de Trump coloca em risco justamente esse fluxo mexicano. Dados da empresa belga Kpler, publicados pelo Financial Times, indicam que Cuba tem petróleo suficiente para apenas mais 15 a 20 dias, situação que pode levar a uma paralisia completa dos sistemas elétrico e de transporte.
Reações e tensão diplomática
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, reagiu veementemente à medida, acusando Trump de querer "estrangular a economia cubana" e classificando seu governo como "fascista, criminoso e genocida". O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, descreveu a ordem como uma "nova escalada dos EUA contra Cuba" baseada em mentiras.
Do lado mexicano, a presidente Claudia Sheinbaum afirmou que os embarques de petróleo para Cuba são motivados por razões humanitárias, visando evitar a interrupção de hospitais e serviços essenciais. Ela alertou que impor tarifas pode desencadear uma crise humanitária de grandes proporções, mas reconheceu que não quer colocar o México em risco de tarifas adicionais.
Economia cubana à beira do colapso
A população cubana já enfrenta meses de severas dificuldades devido à escassez de combustível:
- Apagões que duram até 20 horas por dia em algumas regiões
- Longas filas para gasolina e transporte
- Alimentos a preços exorbitantes
- Acúmulo de lixo nas ruas sem coleta
A economia do país está mergulhada em recessão há anos, com produção industrial em 2024 atingindo o nível mais baixo em quatro décadas. A agricultura está paralisada, o turismo internacional registrou menos de 2 milhões de visitantes em 2025, e há grave escassez de medicamentos em meio a surtos de dengue, zika e chikungunya.
O economista Omar Everleny, ex-diretor do Centro de Estudos Econômicos Cubanos da Universidade de Havana, descreveu a situação como "extremamente difícil", enquanto o próprio governo cubano reconhece que o bloqueio total do fornecimento de combustível pode submeter a população "a condições de vida extremas".
Nas palavras de Díaz-Canel, esta não é apenas mais uma crise, mas sim "o acúmulo de distorções, adversidades, dificuldades e nossos próprios erros, exacerbados por um embargo externo extremamente agressivo".