Presidente alemão critica EUA e alerta para 'covil de ladrões' na ordem mundial
Steinmeier critica política externa dos EUA e ordem mundial

O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, emitiu uma crítica contundente à política externa dos Estados Unidos, alertando que a ordem global corre o risco de se transformar em um 'covil de ladrões'. As declarações foram feitas durante um evento na noite de quarta-feira (7), em Berlim, onde o chefe de Estado alemão, que ocupa um cargo majoritariamente protocolar, usou de sua liberdade para passar uma mensagem política de peso.

Críticas à ruptura da ordem internacional

Steinmeier não citou diretamente a recente operação americana na Venezuela, que extraiu Nicolás Maduro do poder, mas falou em uma 'segunda ruptura histórica'. A primeira, em sua avaliação, foi a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, seguida pela invasão da Ucrânia em 2022. A segunda ruptura, segundo ele, vem do 'colapso dos valores por parte de nosso parceiro mais importante, os EUA'.

'Trata-se de impedir que o mundo se transforme em um covil de ladrões, onde os mais inescrupulosos pegam o que querem, onde regiões ou países inteiros são tratados como propriedade de algumas grandes potências', declarou o presidente alemão, que tem vasta experiência como ex-ministro das Relações Exteriores.

Chamado por um esforço coletivo e reações políticas

Steinmeier defendeu que ameaças à ordem mundial devem ser enfrentadas de forma conjunta e que países como Brasil e Índia precisam ser convencidos a participar desse esforço. O evento, que celebrou seu 70º aniversário com jazz e debates sobre democracia, contou com a presença de figuras como o ex-secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg.

Paralelamente, seu próprio partido, o SPD, preparava um documento para o grupo parlamentar no Bundestag. O texto, obtido pelo jornal Die Zeit, afirma que 'o governo americano está se distanciando ainda mais da Europa liberal' e que não se pode mais confiar incondicionalmente nos EUA como potência protetora. O documento também menciona as 'ameaças flagrantes' contra a Groenlândia, revividas pelo ex-presidente Donald Trump.

Eco europeu e a posição do governo alemão

As críticas de Steinmeier encontraram eco em outras capitais europeias. Em Paris, no dia seguinte (8), o presidente francês Emmanuel Macron afirmou que os EUA estão 'se afastando gradualmente' de aliados e 'se libertando das regras internacionais'. Macron alertou para uma 'agressividade neocolonial' nas relações diplomáticas, em clara referência às ações americanas na América Latina e no Ártico.

Enquanto isso, o chanceler alemão, Friedrich Merz, líder da coalizão de governo com o SPD, tem adotado um tom mais cauteloso nas críticas a Washington. No entanto, o governo alemão já pediu respeito ao direito internacional após os eventos na Venezuela, e Merz é signatário de uma carta de apoio à Groenlândia, uma forte manifestação da União Europeia sobre o tema.

As declarações do presidente alemão, embora não representem formalmente a posição do governo executivo, inserem um debate crucial no Parlamento e pressionam a liderança de Merz a se posicionar de forma mais firme diante das ações unilaterais que, segundo a visão de parte da elite política europeia, ameaçam os pilares da ordem multilateral.