O Irã vive um dos momentos mais brutais de repressão desde a Revolução de 1979. Manifestantes que contestam o regime teocrático estão sendo sufocados, com um saldo estimado em cerca de cinco mil mortos, segundo informações da inteligência israelense. Apesar da coragem e da luta por direitos básicos, os iranianos enfrentam uma batalha solitária, marcada por um silêncio ensurdecedor de setores da esquerda ocidental que costumam se mobilizar por outras causas.
O Gesto Icônico e a Indiferença Global
As imagens que conseguem furar o bloqueio de informações mostram a bravura dos manifestantes. Um dos atos de protesto que se tornou símbolo da revolta é o gesto irônico de acender um cigarro com um cartaz em chamas do aiatolá Ali Khamenei. No entanto, essa coragem não encontrou eco nas ruas das principais capitais ocidentais. Fora das comunidades de exilados iranianos, praticamente não houve manifestações de rua expressivas exigindo o fim da violência em Teerã.
Esta ausência contrasta fortemente com a mobilização frequente em torno de causas consideradas antiamericanas ou anti-israelenses. Como observou o colunista Jake Wallis Simpson no Telegraph, muitos ativistas "agem apaixonadamente quando seu ativismo prejudica o Ocidente, mas suas vozes parecem abandoná-los quando o tirano usa turbantes". A análise aponta para uma solidariedade seletiva, onde a posição política prioriza a oposição aos Estados Unidos e a Israel, muitas vezes silenciando sobre atrocidades cometidas por regimes alinhados contra esses países.
A Hipocrisia do Silêncio e uma Cena Surreal
Clarissa Hard, escrevendo na Spectator, destacou a ironia do momento: "As cidades ocidentais deveriam estar lotadas de feministas fervorosas celebrando a coragem de suas irmãs iranianas diante de uma opressão perversa. No entanto, seu silêncio é conspícuo". A luta das mulheres iranianas, que arriscam a vida contra leis opressoras, não gerou a mesma onda global de apoio que outras pautas.
Um episódio em Washington ilustra o absurdo da situação. Mulheres da diáspora iraniana protestavam contra o regime de Khamenei quando se depararam com um grupo menor de esquerdistas que celebravam o Hamas. A tentativa de diálogo revelou um abismo ideológico. A ironia, como descrita no relato, era tão grande que parecia "cena de um filme de Monty Python", especialmente considerando as dinâmicas raciais e políticas envolvidas.
Um Futuro Incerto e a Possibilidade de Intervenção
O especialista Vali Nasr, de origem iraniana, avalia que, para os protestos de civis desarmados alterarem o equilíbrio de poder no país, seria necessário que as multidões permanecessem nas ruas por muito mais tempo. Além disso, precisaria haver uma rachadura no próprio Estado, com segmentos das forças de segurança desertando. Sem isso, o regime teocrático pode sair vitorioso mais uma vez, após uma repressão massiva.
A possibilidade de uma intervenção militar americana, prometida por Donald Trump, é complexa. Os Estados Unidos têm forças qualificadas na região, mas dependem de permissões logísticas de países como o Catar, que mantém simpatias pelo Irã. No momento, não há um porta-aviões americano no Golfo Pérsico, e algumas tropas estão sendo realocadas preventivamente da base de Al Udeid, no Catar, devido a rumores de um ataque iminente.
Enquanto isso, jovens como Erfan Soltani, de 26 anos, condenado à morte na forca, aguardam seu destino. Seu perfil – um jovem moderno, que trabalha com roupas e segue tendências globais – é um retrato da geração que o regime tenta calar. A execução sumária de pessoas como ele e a perseguição sistemática a homossexuais – entre quatro e seis mil executados desde 1979 – não provocam a mesma indignação global dirigida a outras causas.
Até a nota oficial do Itamaraty brasileiro, que "lamentou as mortes e transmitiu condolências", foi criticada por seu tom genérico, que pareceu mais uma advertência contra intervenções externas do que uma defesa concreta dos direitos humanos. O comunicado sublinhou que "cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país", em uma clara mensagem à administração Trump.
A pergunta que permanece é: a coragem dos iranianos será suficiente para mudar o curso de sua história, ou serão novamente massacrados até o silêncio, abandonados pela solidariedade seletiva do mundo?