A prisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, em uma operação conduzida pelos Estados Unidos na madrugada do último sábado (3), abalou a estrutura de poder que se manteve inalterada por mais de uma década. Por 12 anos, Maduro governou sem desafios internos aparentes, cercado por um grupo de fiéis herdeiros políticos de Hugo Chávez.
Os quatro pilares do poder chavista
Com a queda do principal líder, a atenção se volta para as figuras que compõem o núcleo duro do regime e que agora terão a tarefa de sustentar o chavismo. Este grupo é formado por Delcy Rodríguez, Jorge Rodríguez, Diosdado Cabello e Vladimir Padrino López, nomes que ocupam os principais cargos da administração e participam ativamente da tomada de decisões há mais de dez anos.
Delcy Rodríguez: a vice-presidente operacional
Delcy Rodríguez assumiu interinamente a presidência após a captura de Maduro. Ela acumula os cargos de vice-presidente executiva e ministra do Petróleo, consolidando-se como uma peça fundamental dentro e fora do país. Sua trajetória no alto escalão começou no governo de Hugo Chávez, mas foi com Maduro que ocupou pastas-chave como Comunicações, Economia e Relações Exteriores.
Advogada formada na Universidade Central da Venezuela, com estudos na França, Delcy também foi a primeira presidente da polêmica Assembleia Nacional Constituinte de 2017. No cenário internacional, protagonizou incidentes, como a tentativa de entrar em uma reunião do Mercosul em Buenos Aires em 2016, quando a Venezuela já estava suspensa do bloco. Ela está entre os altos funcionários sancionados pela União Europeia e pelos Estados Unidos.
Jorge Rodríguez: o estrategista intelectual
Irmão de Delcy, Jorge Rodríguez é considerado o principal articulador político e estrategista eleitoral do chavismo. Atual presidente da Assembleia Nacional, sua influência remonta a 2003, quando, como reitor do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), desempenhou papel central no plebiscito pela revogação do mandato de Hugo Chávez.
Médico psiquiatra de formação, Rodríguez tem raízes políticas profundas. Seu pai, Jorge Antonio Rodríguez, foi fundador da Liga Socialista, movimento de esquerda revolucionária. Ele é visto por analistas não apenas como o braço direito de Maduro, mas como um potencial sucessor, sendo o chefe de campanha do presidente nas eleições de julho de 2024.
Diosdado Cabello: o número dois histórico
Desde o último pronunciamento público de Hugo Chávez, em dezembro de 2012, quando este designou Maduro como sucessor, Diosdado Cabello é considerado o número dois do chavismo. Sentado à direita de Chávez naquela ocasião, Cabello é um militar reformado que participou do golpe fracassado de 1992.
Ele ocupou inúmeros cargos de poder, incluindo a vice-presidência executiva, ministérios e a presidência da Assembleia Nacional. Atualmente é ministro do Interior e Justiça. Apesar de especulações sobre rivalidade com Maduro, Cabello declara que são "irmãos", por serem "filhos de Chávez". É alvo de sanções dos EUA, que oferecem uma recompensa de US$ 25 milhões por informações que levem à sua prisão, acusando-o de ligações com o narcotráfico.
Vladimir Padrino López: o homem forte das Forças Armadas
Vladimir Padrino López é o ministro da Defesa que mais tempo permaneceu no cargo na história da Venezuela, nomeado por Maduro em outubro de 2014. Como comandante-em-chefe das Forças Armadas, garantiu o apoio incondicional dos militares ao governo, inclusive durante os protestos pós-eleitorais de julho de 2024.
Sua habilidade, segundo analistas, foi harmonizar os diferentes grupos de poder dentro das instituições militares após a morte de Chávez, distribuindo cotas de influência e recursos. Sob seu comando, os militares expandiram sua atuação para áreas como mineração e petróleo, através de empresas estatais controladas pelas Forças Armadas.
O futuro do chavismo sem seu líder máximo
A prisão de Nicolás Maduro abre um capítulo inédito e de incertezas na política venezuelana. O arranjo de poder, até então estável, agora será testado. A pergunta que fica é se este quarteto, que por anos atuou de forma coordenada sob a liderança de Maduro, conseguirá manter a coesão e a governabilidade em um cenário de pressão internacional extrema e com seu principal símbolo fora de cena.
Especialistas apontam que, embora existam diferenças entre eles, a relação tem sido de subordinação a Maduro. A capacidade de Delcy Rodríguez na presidência interina, a influência de Cabello no partido PSUV, a estratégia de Jorge Rodríguez e o controle de Padrino sobre os quartéis serão os fatores determinantes para o futuro imediato do chavismo e da Venezuela.