O ano de 2025 foi marcado por uma relação turbulenta entre o presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (União-AP), e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Após um início de gestão com forte alinhamento, onde Alcolumbre se consolidou como principal fiador do Planalto no Legislativo, uma série de desentendimentos abalou a parceria, com epicentro nas indicações para o Supremo Tribunal Federal (STF) e para cargos em agências reguladoras.
Do aliado fundamental ao atrito aberto
De volta ao comando do Senado e do Congresso em 2025, Davi Alcolumbre construiu uma base de apoio ampla, recebendo votos tanto do governo e do PT quanto da maioria da oposição. Nos meses seguintes, transformou-se no principal articulador dos projetos de interesse do Executivo no Senado, papel considerado por senadores da base governista até mais importante do que o desempenhado pelos próprios líderes oficiais do governo. Esta atuação foi crucial para a governabilidade de Lula, que enfrentou mais dificuldades na Câmara dos Deputados.
Contudo, a relação cordial e de tom informal entre os dois presidentes começou a ruir a partir de outubro de 2025. O estopim foi o anúncio da aposentadoria do então ministro do STF, Luís Roberto Barroso. Alcolumbre e integrantes influentes do Senado defendiam que o presidente Lula indicasse Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para a vaga. A escolha do Planalto, no entanto, recaiu sobre Jorge Messias, anunciada no fim de novembro.
Retaliação e o discurso da "pauta-bomba"
A indicação de Messias gerou um afastamento imediato. No mesmo dia do anúncio, Alcolumbre informou que colocaria em votação no Senado o projeto que cria aposentadoria especial para agentes de saúde, uma proposta de alto custo fiscal e contrária aos interesses do governo. Aliados de Lula interpretaram a manobra como uma clara retaliação, um exemplo do que costuma ser chamado nos bastidores de "pauta-bomba".
O presidente do Senado reagiu publicamente. Em discurso no dia 25 de novembro, Alcolumbre rechaçou as críticas e lembrou o apoio dado ao governo em momentos difíceis, citando como exemplo a aprovação do programa Pé-de-Meia, que terá um custo de R$ 12 bilhões por ano, totalizando quase R$ 100 bilhões em oito anos. "Não foi bomba", afirmou, demonstrando indignação com as acusações.
Os atritos se multiplicaram. Alcolumbre reclamou de declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre responsabilidade fiscal, e também se queixou diretamente ao governo após Lula afirmar que o Congresso havia "sequestrado" o Orçamento por meio das emendas parlamentares.
Caminho para a reaproximação e pendências
Nas últimas semanas de 2025, iniciou-se um movimento para esfriar a crise. O presidente Lula conversou com senadores poderosos e próximos de Alcolumbre, como Weverton Rocha (PDT-MA), Otto Alencar (PSD-BA), Omar Aziz (PSD-AM), Eduardo Braga (MDB-AM) e Renan Calheiros (MDB-AL). Paralelamente, o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), que é aliado de Alcolumbre no Amapá, trabalhou pela reaproximação.
O esforço surtiu efeito. Após a última sessão do Congresso no ano, Alcolumbre e Lula conversaram por telefone e, dias depois, se encontraram pessoalmente. Na conversa, Lula agradeceu ao presidente do Senado pelos projetos aprovados e voltou a defender que Pacheco concorra ao governo de Minas Gerais – sugestão que não foi bem recebida. Também sondou o clima para a votação da indicação de Messias, mas esse tema ficou para ser resolvido apenas com a retomada dos trabalhos, em fevereiro.
Apesar da melhora, aliados de Alcolumbre avaliam que a relação ainda não voltou ao patamar harmonioso da maior parte de 2025. Outras fontes de atrito permanecem, como a lentidão na aprovação dos nomes indicados por Lula para dirigir agências reguladoras, que dependem de aval do Senado. Parte dessas autarquias segue com cargos vagos, incluindo a presidência da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e, a partir de janeiro, duas diretorias do Banco Central.
Outro ponto de tensão foi a campanha nos bastidores liderada por Alcolumbre para derrubar o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, um dos mais próximos de Lula. Apesar da pressão, o presidente se recusou a demitir o auxiliar, mantendo mais um foco de desgaste na relação com a cúpula do Senado.