Os protestos contra o governo do aiatolá Ali Khamenei no Irã ganharam uma dimensão histórica nas últimas semanas, colocando em xeque a estabilidade do regime teocrático. Além das reivindicações por mudanças na economia, os manifestantes passaram a exigir abertamente o fim do sistema político comandado por Khamenei. Os atos já resultaram em pelo menos 538 mortes e mais de 10 mil prisões, segundo informações divulgadas.
Crise econômica inflama revolta popular
Em entrevista ao Jornal da Record News, o professor de Relações Internacionais da Unicamp, Antônio Henrique Lucena, afirmou que existe um risco real de o governo de Khamenei cair. O especialista baseia sua análise na magnitude inédita dos protestos e no agravamento severo da crise econômica que assola o país.
"Existe sim um risco real do regime cair. É importante ressaltar que esses protestos são os maiores que o Irã tem vivenciado", destacou Lucena. Ele relaciona a explosão do descontentamento ao colapso do rial, moeda iraniana, e a uma inflação que atingiu cerca de 56% apenas no último mês. A combinação desses fatores criou um cenário de profunda insatisfação entre a população.
Orçamento para elite religiosa acirra tensões
Um evento específico serviu como catalisador para a recente onda de indignação: a divulgação do orçamento nacional para 2026 pelo presidente Masoud Pezeshkian. De acordo com a análise do professor Lucena, a proposta orçamentária revelou prioridades que enfureceram os cidadãos.
"Há pouquíssimos subsídios para conter a inflação e boa parte do orçamento está destinado para a segurança e para a elite religiosa", explicou o acadêmico. Essa distribuição de recursos gerou na população a percepção de que o governo beneficia uma "elite cleptocrática", em detrimento das necessidades básicas do povo, como o controle dos preços de alimentos e combustíveis.
Controle da internet como ferramenta de repressão
Diante da amplitude dos protestos, o regime iraniano tem intensificado suas medidas para conter a disseminação das manifestações. Uma das estratégias centrais, segundo aponta o professor da Unicamp, é o rigoroso controle do acesso à internet.
As autoridades estão implementando uma rede de conexão própria, chamada Halalnet, e restringindo o acesso a plataformas e redes sociais internacionais. Essa tática é um aprendizado direto dos levantes da Primavera Árabe, que começaram na Tunísia entre 2007 e 2008.
"Os aiatolás aprenderam com essa prática e passaram a controlar e reprimir ainda mais a internet", afirmou Lucena. A lição absorvida foi que a internet sem restrições, como visto no caso do Egito, pode intensificar e espalhar os protestos rapidamente, dificultando a ação do governo.
O cenário atual no Irã apresenta, portanto, uma combinação explosiva: uma crise econômica devastadora, uma população cada vez mais destemida em suas críticas ao regime e um governo que aposta em métodos de censura e repressão aprendidos com a história recente da região. A avaliação de especialistas como Antônio Henrique Lucena sugere que a resistência do regime de Khamenei enfrenta seu teste mais difícil, com um risco tangível de mudança política no horizonte.



