A prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro, ocorrida recentemente, não representou uma transformação imediata na estrutura de poder do país. De acordo com análises de especialistas, o núcleo duro do chavismo segue controlando as principais instituições, forças de segurança e os mecanismos de decisão, mantendo o regime praticamente intacto mesmo sem seu principal líder.
Estruturas de poder permanecem intactas
O professor de Políticas Públicas do Ibmec, Eduardo Galvão, em entrevista ao programa Mercado, destacou que a simples remoção de uma figura de liderança raramente é suficiente para desmontar um sistema político consolidado. “Os homens fortes do governo Maduro continuam no poder. Tirar o líder não basta se as estruturas permanecem intactas”, afirmou o especialista.
Galvão enfatiza que, até o momento, não houve uma mudança estrutural significativa. O controle sobre o aparato estatal e de segurança continua nas mãos dos mesmos grupos que sustentavam o antigo presidente, indicando que a prisão foi um evento pontual dentro de uma configuração de poder mais ampla e resistente.
Estados Unidos priorizam estabilização, não transição
Segundo a análise apresentada, a ação americana na Venezuela se insere em uma estratégia calculada de gestão de crises, e não em um plano para uma transição política imediata. A lógica seguida por Washington, conforme explicou Galvão, é semelhante a roteiros de intervenção internacional já conhecidos.
O processo teria três etapas principais:
- Fase de estabilização: neutralização da liderança política central.
- Recuperação econômica e institucional: reorganização das estruturas internas do país.
- Transição política: eventual mudança de regime, que seria considerada apenas em um momento posterior.
“Os Estados Unidos trabalham com a ideia de desmontar o sistema em etapas. Primeiro, neutralizam a liderança; depois, tentam reorganizar as estruturas; e só num terceiro momento pensam em mudança de regime”, detalhou o professor. No entanto, ele ressalta que tanto o formato quanto o prazo desse processo ainda são indefinidos, deixando a Venezuela em um limbo político.
Venezuela como peça no tabuleiro geopolítico global
Para Eduardo Galvão, as ações e declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demonstram uma postura de afirmação de poder. “Os Estados Unidos estão mostrando que podem muita coisa e que querem muita coisa também”, disse. Essa demonstração de força deve ser interpretada no contexto da disputa hegemônica global, que tem a América Latina como um palco central.
A relevância da região, segundo o especialista, vai além de questões ideológicas. Ela é crucial nas cadeias de produção, fornecimento, tecnologia e energia. Nesse cenário, a crise venezuelana é amplificada pela rivalidade crescente entre EUA e China.
“É menos uma disputa por fronteiras e mais uma disputa por redes: redes de produção, de fornecimento, de tecnologia e de comunicação”, afirmou Galvão. A Venezuela, com suas vastas reservas energéticas e posição geopolítica estratégica, torna-se um ponto focal nessa competição.
Portanto, a prisão de Nicolás Maduro é vista apenas como um capítulo inicial de uma ofensiva mais ampla, cujo desfecho final permanece incerto. O país segue com seu futuro condicionado não apenas por decisões internas, mas pelas tensões e movimentos das grandes potências mundiais.