Crise da Groenlândia exige 'diplomacia ponderada', alerta chefe da Otan em Davos
O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte, declarou nesta quarta-feira, 21 de janeiro de 2026, que a única forma de resolver as crescentes tensões em torno da Groenlândia é através de uma diplomacia ponderada e cuidadosa. A afirmação foi feita durante um painel no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, horas antes do discurso programado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que pode intensificar ainda mais o conflito diplomático.
Declaração busca acalmar ânimos antes de pronunciamento de Trump
Em meio a um clima de apreensão internacional, Rutte buscou apaziguar as declarações agressivas recentes da administração americana sobre o território autônomo dinamarquês. "Vejo que existem tensões no momento, sem dúvida. Novamente, não vou comentar sobre isso, mas posso garantir que a única maneira de lidar com isso é, no fim das contas, por meio de uma diplomacia ponderada", afirmou o líder da aliança militar.
O secretário-geral reconheceu que há razões legítimas para buscar a defesa da Groenlândia contra a influência estratégica da Rússia e da China na região ártica, mas enfatizou que a Otan deve ser o instrumento principal para essa proteção. "No que diz respeito ao Ártico, acho que o presidente Trump está certo. Outros líderes da Otan também estão certos. Precisamos defender o Ártico", completou Rutte.
Preocupação com desvio de foco da guerra na Ucrânia
Um dos pontos mais sensíveis destacados pelo chefe da Otan foi o risco de que a discussão sobre a Groenlândia desvie a atenção internacional do conflito na Ucrânia, que ele definiu como "a questão principal" no cenário geopolítico atual. "Eu estou realmente preocupado com a possibilidade de que percamos de vista (a guerra), em um momento no qual a Ucrânia não tem mísseis de interceptação suficientes para se defender", alertou.
Durante seu pronunciamento, Rutte também descartou categoricamente a possibilidade de um colapso da aliança atlântica devido às tensões recentes, reafirmando que a Otan "é crucial não apenas para a defesa da Europa, mas também para a defesa dos EUA". A declaração foi uma resposta direta às dúvidas levantadas por Trump na terça-feira sobre a utilidade da organização e a disposição dos estados-membros em socorrer Washington em uma possível crise.
Referência histórica ao Artigo 5 e defesa mútua
O líder da Otan fez uma referência histórica ao ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 para reforçar o compromisso de defesa mútua entre os aliados. "Eu digo a ele que sim, como fizemos no 11 de setembro de 2001, quando pela primeira e única vez o Artigo 5 foi disparado", afirmou Rutte, lembrando que o dispositivo de defesa coletiva foi acionado em apoio aos Estados Unidos após os ataques da Al-Qaeda.
Expectativa crescente pelo discurso de Trump em Davos
As declarações do secretário-geral ocorrem em um momento de grande expectativa internacional, com o discurso de Donald Trump em Davos programado para as 10h30 no horário de Brasília. Analistas políticos consideram que o pronunciamento do mandatário americano será um teste crucial para avaliar se ele buscará tranquilizar os aliados europeus ou se formalizará uma postura ainda mais assertiva em relação às ambições americanas sobre a Groenlândia.
Enquanto aguardam o discurso presidencial, as tensões diplomáticas continuam a se manifestar em outros espaços do fórum. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, provocou reações ao descrever a Dinamarca como "irrelevante" durante um debate, referindo-se ao tamanho limitado dos investimentos dinamarqueses em títulos do Tesouro dos EUA.
Contexto estratégico da disputa pela Groenlândia
A crise atual tem suas raízes no interesse renovado da administração Trump pelo controle da Groenlândia, um território que possui:
- Riquezas minerais significativas e ainda pouco exploradas
- Posição geográfica estratégica entre o norte do Oceano Atlântico e o Ártico
- Importância militar crescente no contexto das rivalidades com Rússia e China
Desde seu retorno à Casa Branca, Trump tem reiterado consistentemente sua ambição de assumir o controle da ilha ártica. O que antes era visto por muitos como bravatas retóricas ganhou credibilidade após a recente ação militar americana na Venezuela, incluindo a captura do ditador Nicolás Maduro e declarações presidenciais sobre governar o país sul-americano.
Esses desenvolvimentos fizeram com que líderes europeus expressassem preocupações genuínas de que a Groenlândia possa ser o próximo alvo da política externa americana. Autoridades em Washington discutem abertamente formas de concretizar o objetivo de controle sobre o território, considerando inclusive a possibilidade de ações militares, embora a diplomacia permaneça como a via preferencial da maioria dos aliados ocidentais.