Em um editorial contundente publicado neste sábado, 3 de janeiro de 2026, o prestigiado jornal norte-americano The New York Times classificou a recente incursão militar dos Estados Unidos na Venezuela como uma ação "ilegal e imprudente". A publicação, uma das mais influentes do país, direcionou duras críticas ao presidente Donald Trump pela decisão, que considera uma violação da Constituição dos EUA e um risco para a estabilidade internacional.
Críticas à Ação de Trump e Violação Constitucional
O corpo editorial do periódico argumenta que operações militares sem aprovação do Congresso, como a realizada no território venezuelano, violam a lei dos Estados Unidos. A Constituição americana exige que o Legislativo seja consultado e aprove intervenções desse tipo. "Sem a aprovação do Congresso, suas ações violam a lei dos Estados Unidos", destacou o jornal, cobrando explicações públicas de Trump.
O texto afirma que o presidente está "empurrando nosso país para uma crise internacional sem razões válidas". Os editorialistas lembram que, no passado, ações similares dos EUA em outros países, como no Afeganistão, criaram mais problemas do que soluções. A análise também refuta a justificativa dada por Trump para a intervenção: combater narcoterroristas que supostamente enviam drogas para os EUA.
Para o NYT, essa declaração é "ridícula", uma vez que a Venezuela não é um produtor significativo de fentanil ou outras drogas. Especialistas citados pelo jornal apontam que os principais produtores na América do Sul são Colômbia, Peru e Bolívia, cujas rotas de tráfico têm como destino principal a Europa, muitas vezes passando pelo Brasil.
Hipocrisia e Perigos do Imperialismo
O editorial aponta uma contradição flagrente na postura de Trump. Enquanto ordenava ações contra embarcações no Caribe, indultou Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras (2014-2022), que comandou esquemas de tráfico de drogas durante seu governo. Essa atitude, segundo o jornal, mina a credibilidade da operação.
A publicação vai além e adverte que a intervenção na Venezuela representa um "perigoso e ilegal enfoque dos Estados Unidos no mundo", transformando o país sul-americano no primeiro alvo do que chama de "imperialismo dos últimos tempos". O NYT teme que a ação sirva de justificativa para potências rivais.
"Trump se arrisca a dar uma justificativa aos líderes de China, Rússia e outros países que querem dominar seus próprios vizinhos. De forma imediata, reproduz a arrogância americana que conduziu a invasão do Iraque em 2003", alerta um trecho do texto.
Condenação à Ditadura de Maduro
Apesar da forte oposição à ação militar de Trump, o The New York Times não poupa críticas ao regime venezuelano. O jornal descreve o líder Nicolás Maduro como "antidemocrático e repressivo", responsabilizando-o por desestabilizar o hemisfério ocidental nos últimos anos.
A publicação relembra que a Organização das Nações Unidas (ONU) documentou detalhes de mais de uma década de crimes cometidos pelo governo Maduro, incluindo tortura, violência sexual e prisões arbitrárias. Também cita alegações de fraude eleitoral para mantê-lo no poder.
"Alimentou perturbações econômicas e políticas na região ao instigar êxodo de quase oito milhões de migrantes", registra o editorial, reconhecendo a grave crise humanitária gerada pelo regime.
Abandono de Princípios e Conclusão
O jornal faz um contraste entre o discurso passado e as ações atuais de Donald Trump. Em 2016, durante sua primeira campanha presidencial vitoriosa, ele se destacou entre os republicanos por criticar a guerra no Iraque. Já em 2024, afirmou: "Não vou começar guerras. Vou acabar com as guerras".
No entanto, segundo a análise do NYT, o presidente está agora abandonando esse princípio e realizando atos militares de maneira ilegal. O editorial conclui que a intervenção na Venezuela, além de ser juridicamente questionável e strategicamente arriscada, mancha a posição moral dos Estados Unidos ao replicar erros históricos, enquanto o mundo observa as violações de direitos humanos cometidas pelo regime que diz combater.