New York Times amplia equipe e muda foco na cobertura da Suprema Corte dos EUA
NY Times amplia cobertura da Suprema Corte dos EUA

Mudança editorial histórica no New York Times

O New York Times anunciou uma reformulação significativa em sua cobertura da Suprema Corte dos Estados Unidos, ampliando de forma drástica sua equipe dedicada ao tribunal mais poderoso do país. A mudança representa um abandono do modelo tradicional, que se concentrava quase exclusivamente em decisões formais, para adotar uma abordagem investigativa mais ampla sobre o funcionamento interno da instituição.

Expansão da equipe e novo enfoque

Após décadas mantendo apenas um repórter especializado no tema, o jornal agora conta com quatro profissionais dedicados à cobertura da Corte. A nova equipe tem como missão examinar mais profundamente o enorme poder exercido pelos nove juízes vitalícios e investigar aspectos até então pouco explorados do tribunal considerado um dos mais secretos do país.

Em artigo publicado nesta segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026, o NYT explicou que a mudança reflete uma avaliação interna de que acompanhar apenas votos e sentenças já não é suficiente para compreender a real influência dos magistrados. As decisões da Suprema Corte têm impacto direto na vida política, social e econômica dos Estados Unidos, tornando essencial uma cobertura mais abrangente.

Fiscalização de uma instituição fechada

O novo enfoque assume explicitamente o papel de fiscalizar uma instituição que opera com poucos mecanismos de controle externo. Diferentemente de outros ocupantes de cargos públicos, os ministros da Suprema Corte não passam por eleições, não divulgam registros de visitas e mantêm documentos internos longe do escrutínio público.

"Nossa cobertura dos casos é essencial. Os argumentos e decisões da Corte são difíceis de entender — para quem não é advogado, o vocabulário pode soar quase como latim", afirmou a repórter investigativa Jodi Kantor, uma das responsáveis pela nova abordagem.

Contexto de revelações recentes

O reforço na cobertura ocorre após uma série de reportagens que expuseram zonas cinzentas na atuação dos magistrados, incluindo:

  • Vínculos financeiros com bilionários conservadores
  • Viagens de luxo não declaradas
  • Contratos milionários mantidos em sigilo
  • Discussões a portas fechadas sobre temas centrais do debate público americano

Entre os temas abordados nessas discussões internas estão a imunidade presidencial de Donald Trump, a decisão que derrubou o direito federal ao aborto e as divisões entre os juízes do bloco liberal.

Casos emblemáticos e agenda oculta

Uma das reportagens recentes revelou um caso particularmente intrigante: um dos autores de uma ação que pode derrubar o último pilar da Lei dos Direitos de Voto sequer sabia que fazia parte do processo. Trata-se de um homem de 78 anos que desconhecia completamente seu envolvimento no caso.

Outro foco da nova cobertura é o chamado shadow docket, ou agenda oculta da Corte — um conjunto de decisões tomadas em caráter emergencial, muitas vezes sem audiência pública nem explicação detalhada. "Essas decisões podem ter efeitos duradouros, mas vêm acompanhadas de pouquíssima transparência", destacou um dos repórteres envolvidos na nova abordagem.

Momento de mudanças institucionais

O aumento da fiscalização jornalística coincidiu com a adoção, pela primeira vez na história, de um código de ética próprio da Suprema Corte. Esta medida foi uma resposta direta às críticas sobre conflitos de interesse e à crescente pressão pública por maior transparência no funcionamento do tribunal.

"No jornalismo, examinar os poderosos é a tarefa número um", afirmou Kantor, resumindo a filosofia por trás da mudança editorial. A nova abordagem do New York Times representa um marco no jornalismo judicial americano, sinalizando uma era de maior escrutínio sobre uma das instituições mais influentes e menos transparentes dos Estados Unidos.