O governo francês se vê em uma situação de tensão política máxima nesta quarta-feira, 14 de janeiro de 2026. O Parlamento do país debate duas moções de censura apresentadas por grupos de oposição, uma da esquerda radical e outra da extrema direita. O motivo do embate é a iminente assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, um tratado que a França oficialmente se opõe, mas que segue em frente.
O cerne da crise: o tratado e a revolta agrícola
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve assinar o polêmico tratado no próximo sábado, 17 de janeiro, com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. O acordo criará a maior zona de livre-comércio do planeta, abrangendo um mercado de cerca de 700 milhões de consumidores.
No entanto, em solo francês, o pacto é visto com extrema desconfiança, principalmente pelo poderoso setor agrícola. Os produtores rurais temem a concorrência desleal de importações de carne, arroz, mel e soja vindas da América do Sul. Em contrapartida, o bloco europeu exportaria mais automóveis e máquinas.
A oposição ao acordo é unânime na classe política francesa, mas os partidos de oposição acusam o governo do presidente Emmanuel Macron e de seu primeiro-ministro, Sebastién Lecornu, de não ter feito o suficiente para barrar a ratificação. Eles argumentam que Paris poderia ter levado o caso à Justiça Europeia ou usado seu poder financeiro, ameaçando reduzir a contribuição ao orçamento da UE.
Poucas chances, mas grande pressão política
Embora as duas moções de censura tenham pouca probabilidade de serem aprovadas, elas representam um teste significativo para a frágil base de apoio do governo. O Partido Socialista e os conservadores de Os Republicanos já anunciaram que não apoiarão as votações, tornando praticamente impossível alcançar a maioria necessária para derrubar o premiê.
Os líderes desses partidos justificam a posição afirmando que a França já deixou clara sua oposição ao acordo, mesmo que não tenha sido bem-sucedida em impedi-lo. "A moção de censura na França não acrescenta nada. Tudo será decidido no Parlamento Europeu", declarou o senador conservador Bruno Retailleau, lembrando que o órgão legislativo da UE ainda precisa ratificar o pacto.
Para a extrema direita, a moção serve para "apoiar os agricultores e denunciar a hipocrisia e a incompetência do governo", nas palavras do deputado Sébastien Chenu. Já a esquerda radical do partido França Insubmissa também citou a "humilhação" sofrida pela França em relação à operação militar americana na Venezuela, que Macron teria sido "incapaz de condenar".
Macron vulnerável em meio a protestos
As moções chegam em um momento de grande fragilidade para o presidente Macron. Seu atual primeiro-ministro, Sebastién Lecornu, é o sexto a ocupar o cargo sob seu mandato e busca aprovar os complexos orçamentos de 2026 enquanto tenta acalmar os ânimos no campo.
Os protestos agrícolas, que levaram tratores a Paris, começaram a ser desmobilizados após o governo anunciar, na terça-feira, 13 de janeiro, uma "lei de emergência agrícola" e outras medidas de apoio. Membros do principal sindicato do setor, o FNSEA, retiraram seus equipamentos da frente da Assembleia Nacional.
A crise política, no entanto, está longe de terminar. Ainda que sobreviva às moções de censura, o governo de Macron sai enfraquecido do episódio. A Assembleia Nacional ainda realizará um debate sobre a situação na Venezuela em 19 de janeiro, outro tema espinhoso que promete manter a pressão sobre o executivo. O desgaste contínuo do presidente e a força da oposição mostram que a turbulência política na França deve permanecer.