A líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, anunciou nesta segunda-feira, 6 de janeiro de 2026, seu plano de retornar à Venezuela "o mais rápido possível". A declaração foi dada em entrevista à rede americana Fox News, logo após a queda e prisão do ex-ditador Nicolás Maduro pelos Estados Unidos.
Elogios a Trump e divergência sobre transição
Durante a entrevista, Machado, de 58 anos e vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, não economizou elogios ao presidente dos EUA, Donald Trump. No entanto, ela revelou uma divergência crucial: Trump tem ignorado seus apelos para que Edmundo González Urrutia, o suposto vencedor das eleições presidenciais de 2024 no país, assuma o poder.
"Pretendo voltar à Venezuela o mais rápido possível", afirmou Machado. "Acreditamos que essa transição deve prosseguir." Ela reforçou a legitimidade de sua coalizão, declarando: "Ganhamos uma eleição em 2024 por uma margem esmagadora, mesmo em condições fraudulentas. Em eleições livres e justas, conquistaremos mais de 90% dos votos".
A posição de Trump, contudo, parece ser diferente. Em coletiva no sábado, 3 de janeiro, o presidente americano afirmou que Machado "é uma mulher simpática", mas questionou seu apoio para liderar uma transição. Ele sugeriu que os Estados Unidos "vão governar" a Venezuela por tempo indeterminado, até que seja possível uma transição "justa e sensata". Na segunda-feira, 5, Trump descartou convocar eleições em 30 dias, argumentando que é necessário "consertar o país" primeiro.
Operação que prendeu Maduro e as graves acusações
A queda de Maduro ocorreu na madrugada de sábado, 3 de janeiro. Segundo a CNN, Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram retirados à força do quarto onde estavam por militares americanos. A ação aconteceu dentro do complexo militar Forte Tiuana, em Caracas. Donald Trump afirmou à Fox News que assistiu ao vivo à transmissão da captura, feita por agentes no local.
Atualmente, o casal está preso no Brooklyn, em Nova York, e alega inocência. Eles respondem a um novo indiciamento da promotoria de Manhattan, que acusa Maduro de supervisionar pessoalmente uma rede estatal de tráfico de cocaína.
As acusações são gravíssimas. O documento judicial alega que o ex-ditador se associou a alguns dos grupos criminosos mais violentos do mundo, incluindo os cartéis mexicanos de Sinaloa e Los Zetas, as FARC colombianas e a gangue venezuelana Tren de Aragua. O objetivo seria transportar milhares de toneladas de cocaína para os Estados Unidos.
O procurador Jay Clayton foi enfático: "Maduro permite que a corrupção alimentada pela cocaína floresça para seu próprio benefício, para o benefício dos membros de seu regime e para o benefício de seus familiares". Além do casal, também são réus o filho de Maduro, Nicolás Maduro Guerra, o ministro do Interior Diosdado Cabello e o líder do Tren de Aragua, Hector Guerrero Flores.
Um futuro incerto para a Venezuela
Com Maduro preso, a vice Delcy Rodríguez assumiu como presidente interina na Venezuela. O cenário político, no entanto, permanece extremamente complexo e dividido.
De um lado, María Corina Machado, símbolo da resistência democrática e agora laureada com o Nobel, pressiona por um retorno à normalidade constitucional, com a posse de Edmundo González. Do outro, a administração Trump demonstra cautela e fala em um período de administração direta pelos EUA, sem prazo definido, antes de qualquer eleição.
A prisão de Maduro marca um ponto de virada histórico, mas abre mais perguntas do que respostas. A transição venezuelana promete ser longa, conturbada e com o envolvimento direto da principal potência mundial, que agora detém as chaves do futuro imediato do país.